Insights Logweb – O movimento da semana de 10 a 14 de agosto

A nova eficiência logística: menos espera, mais integração e decisões que geram resultado

*Por Valeria Lima

Quanto vale uma hora na logística?

Para um caminhão parado em uma fila, representa improdutividade.

Para um navio esperando para atracar, significa custo.

Para um consumidor aguardando uma entrega, pode significar insatisfação.

Para uma indústria sem o equipamento adequado para transportar sua matéria-prima, pode representar risco de abastecimento.

Talvez essa seja uma das melhores formas de interpretar as notícias publicadas pelo Portal Logweb nesta semana.

Depois de acompanhar, nas últimas edições do Insights Logweb, o avanço da infraestrutura, da Inteligência Artificial, da integração e da capacidade de decisão, os acontecimentos desta semana colocam outro elemento no centro da discussão:

resultado.

Tecnologia, infraestrutura e inovação só criam valor quando conseguem transformar a operação.

E os sinais dessa transformação começam a aparecer de forma bastante concreta.

Quando tecnologia devolve tempo à operação

Um dos exemplos mais emblemáticos da semana vem do Peru — e com tecnologia brasileira.

Um projeto de modernização implantado pela eProfessionalTI na operação da CIMC Wetrans Logistics, em Callao, reduziu o tempo médio de espera dos caminhões de até três horas para aproximadamente 30 minutos.

Mais do que digitalizar processos, a solução integrou operações de gate, pátio, armazenagem, inspeção e manutenção, além de disponibilizar informações em tempo real.

O resultado chama atenção por uma razão importante:

a capacidade operacional aumentou sem que fosse necessário ampliar fisicamente o terminal.

Essa talvez seja uma das grandes mudanças de paradigma da logística moderna.

Durante décadas, aumentar capacidade significava, quase automaticamente, aumentar infraestrutura.

Mais área.

Mais equipamentos.

Mais ativos.

Hoje, em determinadas operações, tecnologia, integração e melhor utilização da infraestrutura existente também podem gerar capacidade.

Isso muda a equação dos investimentos logísticos.

A mesma busca pela eficiência chega aos portos

Curiosamente, outro número da semana reforça essa tendência.

No Terminal de Vila do Conde, no Pará, investimentos da Ultracargo contribuíram para reduzir em cerca de 80% o tempo de espera dos navios.

No Porto de Santos, a Autoridade Portuária assinou contrato para implantação de um sistema de gerenciamento do tráfego marítimo.

São iniciativas diferentes, mas apontam para uma mesma transformação.

A infraestrutura continua fundamental, mas a maneira como ela é gerenciada passa a ser tão importante quanto sua dimensão física.

Um porto mais eficiente não é necessariamente apenas aquele que possui mais berços ou maior área.

É aquele que consegue coordenar melhor seus ativos, antecipar movimentos, reduzir tempos improdutivos e aumentar a previsibilidade das operações.

Em uma cadeia global pressionada por custos e prazos, minutos e horas deixam de ser apenas indicadores operacionais.

Passam a representar competitividade.

O consumidor também está redefinindo o significado de eficiência

No outro extremo da cadeia está o consumidor.

E ele está cada vez menos disposto a esperar.

O lançamento do Shopee Turbo, com entregas em até quatro horas na Grande São Paulo, mostra como a velocidade continua avançando como elemento da experiência de compra.

Mas existe algo particularmente interessante nessa operação.

O modelo utiliza geolocalização para conectar consumidores às lojas localizadas em sua própria região.

Ou seja, a entrega rápida não depende apenas de colocar mais veículos nas ruas.

Depende de posicionar estoques, integrar lojas físicas e canais digitais e utilizar informação para aproximar produto e demanda.

Isso conversa diretamente com o artigo de Rafael Dória sobre o impacto do e-commerce nas operações do atacarejo e com a análise de Alisson Sousa sobre a passagem da entrega rápida para a entrega inteligente.

Talvez essa distinção seja fundamental.

Velocidade, sozinha, não define eficiência.

Eficiência é entregar no prazo que faz sentido, com o custo adequado e utilizando os recursos certos.

Da integração de sistemas à orquestração da cadeia

Outra tendência que apareceu com força nesta semana é a integração.

A união das soluções da Mobiis e da Gestran reúne gestão de frotas, fretes e rastreamento em uma mesma plataforma.

A Motiva criou uma área específica de governança tecnológica para conduzir sua estratégia de transformação digital.

E o artigo de André Mortari discute como a orquestração logística começa a entregar benefícios associados ao conceito de 4PL.

Esses movimentos mostram uma mudança importante.

Durante muitos anos, as empresas digitalizaram departamentos.

Um sistema para transporte.

Outro para estoque.

Outro para rastreamento.

Outro para documentos.

Outro para gestão.

Agora, o desafio é diferente.

É fazer esses sistemas conversarem.

A logística começa a sair da era das soluções isoladas para entrar na era da orquestração.

E é justamente essa visão integrada que permite transformar uma quantidade crescente de dados em decisões mais rápidas e consistentes.

Inteligência Artificial: vantagem somente quando vira resultado

A Inteligência Artificial também aparece novamente entre os temas da semana.

O artigo de Ronaldo Fernandes da Silva analisa seu papel como vantagem competitiva estratégica na logística.

Mas a sequência das últimas semanas do próprio Insights nos permite acrescentar uma reflexão.

IA não pode ser analisada apenas pela sofisticação da tecnologia.

Seu verdadeiro valor estará nos resultados que conseguir produzir.

Reduzir quilômetros percorridos.

Melhorar previsão de demanda.

Diminuir estoques desnecessários.

Antecipar falhas.

Otimizar rotas.

Reduzir filas.

Aumentar produtividade.

Melhorar o nível de serviço.

A pergunta começa a mudar.

Em vez de:

“Sua empresa já utiliza Inteligência Artificial?”

Talvez devêssemos perguntar:

“Que problema concreto sua Inteligência Artificial está resolvendo?”

Essa diferença será cada vez mais importante à medida que a tecnologia se disseminar.

Quando a restrição obriga a logística a inovar

Nem toda inovação nasce de uma tecnologia nova.

Às vezes, nasce de uma limitação.

A escassez de isotanks no comércio entre China e Brasil vem levando empresas da indústria química a ampliar o uso de flexitanks para determinadas operações de importação de líquidos.

O caso é interessante porque revela outra característica fundamental das cadeias modernas:

adaptabilidade.

Quando um equipamento falta, uma rota é interrompida ou uma capacidade se torna insuficiente, a logística precisa encontrar alternativas.

Essa capacidade de adaptação também aparece no planejamento do transporte fluvial durante o período de seca na Amazônia.

Operar em um país com dimensões continentais e condições climáticas tão diversas exige planejamento antecipado e flexibilidade.

Eficiência, portanto, não significa apenas executar perfeitamente o plano original.

Às vezes significa ter capacidade para mudar o plano antes que a operação pare.

A sustentabilidade entra definitivamente na equação da eficiência

Outra notícia desta semana merece atenção especial.

A Be8 apresentou um novo biocombustível anunciado pela empresa como capaz de substituir integralmente o diesel fóssil e reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa.

Ao mesmo tempo, a Nespresso amplia sua logística reversa na Grande São Paulo, enquanto a FedEx transformou uniformes fora de uso em mais de seis mil cobertores.

Também tivemos a ampliação da movimentação de veículos elétricos pelo Sepetiba Tecon.

São iniciativas muito diferentes entre si.

Mas revelam uma mudança de mentalidade.

Durante muito tempo, eficiência operacional e sustentabilidade foram tratadas como agendas paralelas.

Cada vez mais, elas começam a convergir.

Reduzir desperdícios, reaproveitar materiais, utilizar fontes energéticas de menor carbono e estruturar cadeias reversas passam a fazer parte da própria lógica operacional.

A logística sustentável deixa de ser apenas aquela que emite menos.

Passa a ser aquela que utiliza melhor os recursos disponíveis.

Eficiência também depende de regras, pessoas e qualificação

Existe ainda outra dimensão que não pode ser ignorada.

A logística opera dentro de um ambiente regulatório cada vez mais complexo.

Nesta semana, a flexibilização temporária de determinadas regras relacionadas ao IBS e à CBS reduziu o risco imediato de rejeição de documentos fiscais durante a transição da Reforma Tributária.

O tema mostra como mudanças fiscais podem ter consequências diretamente operacionais.

Também merece atenção o movimento da ABOL ao apresentar propostas para o desenvolvimento da logística brasileira no próximo ciclo de governo.

Infraestrutura, tributação, regulação e segurança jurídica não são assuntos externos à logística.

Eles determinam parte importante de sua produtividade.

Ao mesmo tempo, empresas como Jamef, JSL, Braspress, Hidrovias do Brasil, Mercado Livre e Santos Brasil anunciaram oportunidades de trabalho no setor.

É mais um lembrete de algo que aparece recorrentemente em nossas análises:

não existe transformação logística sem pessoas capazes de executá-la.

A eficiência muda de significado

Quando observamos todas as notícias desta semana em conjunto, talvez seja possível perceber uma mudança maior.

Durante muito tempo, eficiência logística significava principalmente fazer mais com menos.

Esse conceito continua válido.

Mas está se tornando insuficiente.

A nova eficiência é mais ampla.

É reduzir espera.

É integrar sistemas.

É antecipar riscos.

É encontrar alternativas.

É utilizar melhor os ativos.

É reduzir desperdícios.

É transformar dados em decisões.

É combinar velocidade com inteligência.

É incorporar sustentabilidade.

E, principalmente, é gerar resultado mensurável.

A logística brasileira parece estar entrando em uma fase na qual o diferencial não estará apenas na quantidade de tecnologia implementada ou no volume de infraestrutura construída.

Estará na capacidade de transformar ambos em produtividade.

Os Cinco Movimentos da Semana

✔ O tempo torna-se um dos principais ativos logísticos — redução de filas, espera de navios e prazos de entrega mostram que eliminar tempo improdutivo gera capacidade e competitividade.

✔ Integração substitui digitalização isolada — plataformas, governança tecnológica e orquestração aproximam diferentes áreas da cadeia em uma visão ponta a ponta.

✔ Velocidade evolui para inteligência — entregas ultrarrápidas ganham eficiência quando estoques, localização, tecnologia e demanda são tratados de forma integrada.

✔ Restrições aceleram novas soluções — escassez de equipamentos, sazonalidade e condições climáticas exigem planejamento e alternativas operacionais.

✔ Sustentabilidade entra na equação da produtividade — novos combustíveis, logística reversa, reciclagem e eletrificação aproximam eficiência econômica e ambiental.

O que observar daqui para frente

A próxima fronteira da eficiência logística provavelmente será medida menos pela quantidade de tecnologias implantadas e mais pelos resultados obtidos com elas.

Redução de tempo de espera, utilização de ativos, custo por entrega, produtividade, previsibilidade, emissões, nível de serviço e capacidade de adaptação tendem a ganhar ainda mais importância.

Também será necessário acompanhar como a pressão por entregas cada vez mais rápidas afetará custos e redes de distribuição — especialmente no e-commerce, atacarejo e última milha.

A grande pergunta não será apenas:

“Quanto mais rápido conseguimos operar?”

Mas:

“Quanto valor conseguimos gerar com cada minuto, cada ativo e cada informação disponível?”

Reflexão Logweb

Talvez um dos maiores desperdícios da logística não esteja dentro de um caminhão, de um armazém ou de um contêiner.

Talvez esteja no tempo que não gera valor.

Um caminhão esperando.

Um navio parado.

Um estoque mal posicionado.

Uma informação que não chega.

Um sistema que não conversa com outro.

Uma decisão tomada tarde demais.

As notícias desta semana mostram que tecnologia, infraestrutura e inteligência começam a atacar justamente esses espaços invisíveis da operação.

E isso nos leva a uma conclusão:

A logística mais eficiente não será necessariamente aquela que corre mais. Será aquela que espera menos, integra melhor e decide mais rápido.

Essa pode ser uma das mudanças mais importantes da logística que estamos vendo nascer.

*Valeria Lima

Presidente Instituto Logweb de Logística e Supply Chain

Diretora da Logweb – Mídia Especializada em Logística

“As notícias informam. O Insights Logweb conecta os fatos e revela os movimentos que ajudam a compreender o futuro da logística brasileira.”

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