Paulo Roberto Guedes, colunista do Portal Logweb, analisa a relação entre política e economia e defende que os dois campos precisam ser discutidos conjuntamente diante da complexidade dos desafios enfrentados pelo Brasil e pelo mundo. O autor aborda temas como desigualdade, desenvolvimento econômico, democracia, mudanças tecnológicas e transformações na geopolítica.
Já escrevi a respeito, mas vale repetir: os problemas atuais do mundo, e em especial os do Brasil, são de uma complexidade extraordinária. O que me entristece não é apenas o fato de eles existirem, mas constatar como tantos se propõem a fazer diagnósticos e a elaborar listas de propostas para solucioná-los.
Não tenho certeza, mas creio que ignorância, desconhecimento, imprecisão histórica e má-fé propiciam a realização de abordagens feitas a partir de premissas irreais e incorretas, quando não mentirosas, que tem resultado em diagnósticos superficiais e incompletos, e que não atingem sequer o cerne das questões. E como já escrevi uma vez, “diagnósticos malfeitos não permitem que se tenham soluções corretas”. Infelizmente, não é um problema novo.
Eu sempre procurei demonstrar, e já há algum tempo (1), que a economia é meio cujo fim maior resume-se na busca do bem-estar da sociedade no que diz respeito ao atendimento de suas necessidades básicas (pelo menos) de bens econômicos e serviços. Implícito está, portanto, criar condições – principalmente políticas – para que todos os cidadãos, além de participarem do processo de produção, isto é, trabalharem, também usufruam, via justo processo de distribuição, do respectivo consumo.
Conclui-se, inclusive, uma vez compreendidos os fenômenos econômicos do mundo real, no qual as imperfeições de mercado e as leis e teorias formuladas se fazem presentes, que as classes dirigentes, a partir e, principalmente, do próprio governo, têm totais condições para desenvolverem e estabelecerem, via Programas e Políticas Econômicas, normas de comportamento – para pessoas e empresas – que busquem respostas eficazes para esses problemas, característicos de toda e qualquer sociedade.
Por outro lado, e mesmo diante de algumas contestações e formas diferentes de se conceituar, aceita-se que o conjunto de estudos que se faz sobre os fenômenos econômicos possa ser chamado de ciência. E mais, e isto vale ser ressaltado, uma ciência social, posto que se relaciona ao comportamento da sociedade, em geral, e do ser humano em particular, com todas as características inerentes, das quais, vale lembrar, a da irracionalidade durante o processo de tomada de decisões.
Consequentemente, ao se ter essa compreensão, isto é, da essência da ciência econômica, percebe-se que ela não pode estar limitada somente à busca das eficiências produtiva e de caixa, principalmente quando for em detrimento de outros objetivos tão importantes quanto esses. Jamais deve ser esquecida a imprescindibilidade de se buscar a melhor forma de se distribuir os bens e serviços produzidos, na medida em que é essencial manter todos os cidadãos, justa e corretamente, recompensados, seja como consumidores ou porque são atores essenciais dos diversos processos de produção instalados em uma sociedade.
A partir desse entendimento (o ‘comportamento’ do ser humano, em todas as suas características, tem importância fundamental no ‘comportamento’ da sociedade, incluindo-se, aí, a própria economia), era de se imaginar já ter passado o tempo no qual os estudos econômicos considerassem, quase que exclusivamente, premissas que tinham como base a racionalidade do ser humano e a existência de mercados funcionando de ‘forma perfeita’.

Vale lembrar que já no início deste século, com o mundo em plena crise, eram poucos os políticos, cientistas, economistas e gente do governo que perceberam o que se avizinhava e, principalmente, que parte das causas estava no fato de não se perceber a imperfeição do mercado para resolver problemas econômicos que tinham raízes mais profundas e estruturais: a economia de mercado, por si só e na forma como posta até então, não seria suficiente para “arrumar as coisas”.
A esse respeito, escreveu Fareed Zakaria, jornalista da CNN: “eles (os economistas) se apaixonaram pelo suposto rigor que deriva da suposição de que os mercados funcionam perfeitamente. Mas o mundo acabou sendo mais complexo e imprevisível do que as equações” (grifos meus).
Ainda, segundo Zakaria, se “os seres humanos raramente são racionais, então é hora de todos pararmos de fingir que são”. Pois é, todos sabemos que durante três décadas, desde o fim da Guerra Fria, a “economia desfrutou de uma espécie de hegemonia intelectual”, responsável para explicar ‘quase tudo’. Felizmente, essa hegemonia não existe mais, embora alguns ainda acreditem que ‘economias de mercado puro’, nas quais o Estado deve estar ausente, funcionam melhor do que outros.
Os mercados não funcionam de “forma perfeita” e as pessoas, empresas e países, além de não atuarem de uma forma eficiente e sempre racional, ainda consideram, em suas decisões econômicas, valores políticos, sociais, religiosos e culturais que, sabe-se, não se comportam de forma linear. É preciso considerar, também, que às vezes atuam com interesses particulares que, nem sempre, estão de acordo com os interesses da maioria. E se isso estava claro e transparente nas chamadas sociedades autocráticas, também se mostrou como verdade nas sociedades ditas democráticas. Aliás, na atualidade, parece que as decisões – que só privilegiam minorias, e isso tem a ver com a Política – têm prepondero e afetado forte e diretamente as democracias.
Não à toa, muitos países, além dos indicadores puramente econômicos, também realizam mensuração de diversas outras variáveis relativas ao bem-estar da sociedade, tais como a liberdade, a soberania, a independência, a felicidade ou a sustentabilidade ambiental.
Quem tem acompanhado as reuniões do Fórum Econômico Mundial, por exemplo, sabe que além das preocupações com o meio ambiente e os conflitos entre nações, um dos assuntos que mais chamam a atenção é a desigualdade, isto é, a forma injusta como são distribuídos os bens econômicos e serviços produzidos.
Por mais que ‘tesoureiros’, ‘financistas’ e ‘homens de negócios’ não gostem, mas até que a economia volte a crescer de forma significativa e os investimentos comecem a gerar seus efeitos multiplicadores, é preciso manter os programas sociais funcionando, incluindo-se as políticas de geração de empregos, como únicas formas de se atenuar o sofrimento das famílias mais pobres, carentes e/ou desamparadas (2). A crise já perdura por muitos anos e isso não é nada bom!
“A economia continua sendo uma disciplina vital, uma das maneiras mais poderosas que temos para entender o mundo”, escreveu Zakaria aqui já citado, mas “à medida que tentamos entender o mundo das próximas três décadas, precisaremos desesperadamente de economia, mas também de ciência política, sociologia, psicologia e, talvez, até literatura e filosofia”. Não tenho dúvida a respeito!
Mas é importante salientar que as consequências de processos contínuos de concentração de renda e de aumento da desigualdade geram, em todo o mundo, desconfiança com relação às instituições existentes, erosão do contrato social, desesperança com a política e descrédito da própria Democracia (3). Como consequências imediatas, estimulam-se movimentos sociais mais radicais que testam, de forma cada vez mais contundente, a geopolítica mundial e as sociedades que ainda não perceberam esses “novos tempos”. É momento, portanto, de o Brasil, assim como todo o mundo, atualizar-se e tomar providências concretas a respeito.
O Brasil não pode permitir que o problema de má distribuição de renda perdure por mais tempo, pois corre o risco de perder o que já conquistou, inclusive valores e princípios que asseguram o funcionamento do regime democrático. Felizmente, como atestam diversos estudos e estatísticas – oficiais – o momento econômico brasileiro poderia ter sido melhor, mas dadas as circunstâncias mundiais, os resultados deveriam ser celebrados (4).
Mas parece que tudo isso não tem importância, posto que assistimos, já há mais de dez anos, um cenário político polarizado, que ainda mantêm em evidência – e com poder – uma extrema esquerda ultrapassada, burra e corrupta e uma extrema direita também corrupta, retrógrada, ignorante e rancorosa.
Para que isso assim não continue, entre outras tão importantes quanto, algumas providências precisam ser tomadas. A primeira, como aqui já explanado, é não acreditar no “deus mercado”, em concorrência perfeita e na racionalidade econômica, na qual a preservação do ‘caixa’ é mais importante que a vida das pessoas. O Brasil precisa voltar a investir e a crescer. Já é tempo de se entender que a moderna economia, e sua própria visão de futuro, no qual setores público e privado desempenham papeis complementares, baseia-se na inovação, no desenvolvimento tecnológico e científico e exige compromissos permanentes com a prevenção da saúde, com a sustentabilidade, a preservação do meio ambiente, a inclusão social e a diminuição da desigualdade.
Em segundo lugar, é necessário que o nosso Congresso, sem dúvida o maior dos nossos problemas, volte a funcionar orientado para o bem coletivo e do País. Sempre de acordo com as normas e procedimentos constitucionais estabelecidos e em igualdade com os demais poderes, nunca acima como atualmente acontece. Assim como é necessário, nas palavras do jornalista Denis L. Rosenfield (Estadão de 27/07/26), “que uma nova direita se apresente ao País, com contornos claros e isenta dos problemas que têm surgido em sua encarnação pela família Bolsonaro”.
Em terceiro lugar, é fundamental que se “desconstruam” cenários de pressão sobre o sistema Judiciário como um todo e do governo em particular (5), de forma a se evitar que eles se submetam ao que conhecemos como “populismo autoritário”. Entretanto, para que essa pressão, que se utiliza de ações com concepções autoritárias e elitistas, próximas do receituário fascista, deixem de existir, será necessário que a Justiça brasileira abra mão de grande parte de seus privilégios, notadamente aqueles ligados à sua remuneração, e julgue e condene, quando for o caso, também seus próprios membros. E com a mesma contundência pela qual condena qualquer outro cidadão desta República.
Em quarto lugar, e muito importante para o Brasil neste exato momento, é compreender que tudo aquilo que acontece nos Estados Unidos (6) não se limita à história dos norte-americanos. Sem dúvida, está em jogo o destino da democracia mundial, principalmente agora em tempos de governo Trump (7). Escreveu o jornalista Jamil Chade em seu livro “Tomara que você seja deportado”, publicado pela editora Nós em 2025: “O que ocorrer neste vasto território americano tem o potencial de definir a própria história da democracia, da construção dos direitos e da ordem mundial”. Principalmente agora, acrescento eu, quando os Estados Unidos estão querendo deixar de exercer o papel fundamental que sempre desempenharam perante todo o mundo (8).
Eu não tenho qualquer dúvida que a desigualdade, o desemprego, os impactos tecnológicos e as mudanças climáticas manterão os movimentos sociais bastante ativos, estimulando a busca de soluções inovativas e testando, de forma contundente, a geopolítica mundial e as sociedades que ainda não perceberam esses “novos tempos”. Para tanto, será imprescindível que nosso País cuide daquilo que realmente precisa ser cuidado. Manutenção do regime democrático, melhoria da qualidade dos nossos poderes, mais notadamente o Legislativo, participação ativa nas decisões voltadas ao desenvolvimento econômico, preservação do meio ambiente, geração de empregos e combate à desigualdade são prioridades absolutas. E não esquecer que Política e Economia precisam ser discutidas de forma conjunta.
(1) “Mais economia e menos finanças” foi o título do artigo que escrevi e publiquei na revista Tecnologística em 30/01/2019.
(2) Em pleno ano 2008, “os CEOs dos nove maiores bancos dos EUA foram escoltados até a sala dourada no Tesouro. O governo tentara apoiar os bancos comprando títulos do mercado aberto, mas o mercado tinha desmoronado”. “A ideia de os mercados estarem sempre certos era insana”, disse o presidente francês Nicolas Sarkozy. O ‘laissez-faire’ acabou”. (“A hora dos economistas”, livro de Binyamin Appelbaum, editado pela GMT, 2023).
“Os líderes das maiores economias, o G-20, reuniram-se em Pittsburgh em setembro de 2009 e depois emitiram uma declaração conjunta dizendo: “Não podemos descansar enquanto a economia global não for restaurada e sua plena saúde e famílias de trabalhadores do mundo inteiro não conseguirem encontrar empregos decentes” (livro de Appelbaum aqui já citado).
(3) “Jovens sem partido” foi o editorial do Estadão do dia 21 de julho último: “queda na filiação de jovens não é sinônimo de apatia cívica, mas um sintoma do afastamento de uma geração que recusa o partidarismo tribal e só espera o básico das siglas: representação social”. Aliás, com os bilhões de reais recebidos dos Fundos Partidário e Eleitoral, a grande maioria dos partidos políticos brasileiros não precisa formar quadros ou ouvir as demandas dos eleitores”. É essencial, portanto, que nossos partidos políticos tenham, de fato, condições de representar os legítimos interesses de nossa sociedade.
Ou é possível acreditar em partidos políticos que, entre 2020 e 2024, dentre 100 emendas via PIX, 82 tem claros indícios de irregularidades?
(4) “Disputa eleitoral: sobram desafios e faltam ideias”, Estadão de 26.07.26, escrito pelo jornalista Rolf Kuntz. “Num quadro global de brutalidade, incerteza econômica, protecionismo e insegurança inflada pelas pretensões imperiais de Donald Trump, o Brasil tem conseguido evitar conflitos, manter a estabilidade política e sustentar a atividade econômica, o emprego e uma inflação tolerável, embora distante da meta de 3%”. “Os números mostram um mercado de trabalho em condições favoráveis no trimestre encerrado em maio, com desocupação abaixo de 6% e nos mais baixos níveis da série iniciada em 2012. O quadro é manchado pela informalidade, pelo subemprego e pelas condições da camada inferior da classe média e dos grupos pobres. Mas a pobreza extrema foi quase erradicada há alguns anos e pouquíssimos brasileiros ainda enfrentam a fome. Se nem tudo anda bem e falta muito trabalho, muito investimento e muita reforma para garantir condições decentes a milhões de brasileiros, é preciso reconhecer, no entanto, a modernização econômica, as melhores condições educacionais e a maior oferta de trabalho a profissionais com alguma qualificação. Os efeitos da modernização do campo aparecem na indústria, nas contas externas e nas condições de consumo no dia a dia. Em Brasília, no entanto, a ação dos líderes políticos do campo ainda contrasta, frequentemente, com a evolução tecnológica do setor. Contas externas saudáveis, apesar das tensões internacionais, têm favorecido, pelo menos até agora, alguma tranquilidade econômica num ano de eleições importantes. O Brasil exportou no primeiro semestre produtos no valor de US$ 184,8 bilhões e acumulou superávit comercial de US$ 42,4 bilhões, 40,3% maior que o de igual período do ano anterior.”
(5) São diversas as narrativas criadas pelo governo Trump para denegrir a imagem do governo brasileiro. Infelizmente, corroboradas de forma mentirosa por ‘traidores’ do Brasil. Uma dessas narrativas afirma que Lula não quis negociar de boa-fé com o governo norte-americano no caso das tarifas. Ora, “como se fosse possível a qualquer chefe de Estado e governo minimamente ciente de seu papel, aceitar as demandas americanas de abertura unilateral de mercados de alto valor agregado, num cenário em que já acumulamos déficits sucessivos na balança comercial com os EUA” (professor universitário brasileiro, Vinícius Rodrigues Vieira em texto publicado no último dia 20 no site JOTA). No mesmo artigo (“Marco Rúbio usa candidatura de Flávio Bolsonaro para se tornar Vice-Rei do Brasil”), Vieira comenta que isso somente será conseguido com o apoio de traidores locais, papel que o senador Bolsonaro desempenha tão bem.
(6) Mesmo os Estados Unidos estão sendo afetados por uma rápida erosão dos seus principais valores democráticos. Como escreveu o jornalista Walter Salles, no prefácio do livro de Jamil Chade (“Tomara que você seja deportado” – Uma viagem pela distopia americana), os sinais são evidentes: “aumento da pobreza absoluta, contração das classes médias, deportação em massa de imigrantes, censura às universidades públicas e privadas, suspensão do financiamento à pesquisa científica, ataque feroz a todas as formas de minorias, desregulamentação das mídias sociais como ferramenta de controle social, negacionismo climático, neutralização do legislativo”.
(7) “Trump, Vance e seus conspiradores estão apenas repetindo o que a cartilha da extrema direita estipula: mentir, capturar o estado e, se o projeto for barrado pelo Judiciário, desmontar o próprio poder dos juízes”. “No Brasil, os apoiadores do bolsonarismo também escolheram o Judiciário como grande inimigo” (“Tomara que você seja deportado”, livro de Jamil Chade aqui já citado).
(8) “A América contra si mesma”, Estadão de 26 julho de 2026, escrito por Luiz Sérgio Henriques, tradutor e ensaísta. “O fato fundamental é que regimes autoritários, como os do socialismo real, tiveram dificuldades insuperáveis para cumprir a agenda plural de direitos e liberdades gravada naquela declaração (Declaração Universal dos Direitos Humanos). Também por isso, e não só pelo relativo atraso econômico, trilharam o caminho da subalternidade e da autodissolução. Os fenômenos de degradação em curso na sociedade e na política norte-americana são especialmente graves. A face interna do problema é o fim que se pretende dar ao sonho americano… com forças contrapostas progressivamente debilitadas, tem o condão de lesar liberdades, acirrar desigualdades e, se não for impedida, pôr em marcha forçada a autocratização da América. A face externa do problema tem dimensão assombrosa. A presidência imperial de Trump é o principal núcleo disseminador da ilusão dos ‘strongmen’ por todo o Ocidente político. Há mais: de um modo geral, nesta turbulenta passagem de época, o grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo.










