Infraestrutura rodoviária avança com duplicação da SP-333, nova fase da Rota Verde Goiás e expansão do free flow nas rodovias brasileiras

O setor de infraestrutura rodoviária brasileiro registra novos investimentos voltados à ampliação da capacidade logística, modernização das concessões e adoção de tecnologias para tornar o transporte mais eficiente. Entre as iniciativas estão a conclusão da duplicação de um trecho estratégico da SP-333, a mudança no controle acionário da concessionária Rota Verde Goiás, a expansão do sistema free flow e a ampliação de plataformas digitais para pagamento automático de pedágios.

As iniciativas refletem um movimento de modernização das rodovias brasileiras, combinando investimentos em engenharia, novos modelos de gestão e digitalização dos serviços, com impactos sobre o transporte de cargas, a mobilidade e o escoamento da produção.

Infraestrutura rodoviária amplia capacidade logística no interior paulista

A JOFEGE, empresa especializada em obras de infraestrutura pesada, concluiu a duplicação do trecho 2 da SP-333, entre os municípios de Guarantã e Pongaí (SP), em um projeto considerado um dos maiores executados recentemente pela companhia.

A obra compreende 28 quilômetros de duplicação, quatro novos dispositivos de acesso e 12 obras de arte especiais, entre pontes e viadutos, além de integrar um corredor logístico que conecta Cajuru, próximo à divisa com Minas Gerais, até Tarumã, na divisa com o Paraná.

Segundo a empresa, o contrato foi executado em 20 meses, após ordem de serviço emitida em outubro de 2024 pela concessionária Entrevias, responsável pelo trecho.

De acordo com Alexandre Pio dos Santos, diretor de Planejamento da JOFEGE, o cronograma exigiu grande capacidade operacional. “Executar 28 quilômetros de duplicação e quatro dispositivos, com 12 obras de arte especiais, em menos de dois anos é um marco de engenharia. Foi um desafio de escala, prazo e logística que exigiu decisões rápidas, estrutura robusta e um alto nível de integração entre equipes.”

Com a duplicação, a rodovia deixa de operar com pista simples e passa a contar com duas faixas em cada sentido, aumentando a capacidade de tráfego em um trecho utilizado diariamente por aproximadamente quatro mil veículos, incluindo elevado fluxo de caminhões e ônibus.

Além da complexidade técnica, a execução enfrentou desafios relacionados à contratação de mão de obra especializada.

Segundo José Osvaldo Ferreira da Silva, gerente de Contratos da JOFEGE, a rotatividade de profissionais chegou a 53% durante a obra. No pico das atividades, aproximadamente 1.200 trabalhadores atuaram simultaneamente no empreendimento, mantendo média entre 600 e 700 colaboradores ao longo da execução.

Para atender essa demanda, a empresa ampliou significativamente sua estrutura de alojamento, chegando à locação de 97 residências para acomodar equipes vindas de outras regiões.

Outro destaque foi a adoção de tecnologias de construção ainda pouco utilizadas no país. A companhia investiu em motoniveladoras equipadas com sistema de nivelamento por GPS integrado a modelos tridimensionais da rodovia, permitindo maior precisão na execução das camadas do pavimento e reduzindo a necessidade de medições manuais em campo.

A logística da obra também exigiu a instalação de uma usina móvel de asfalto, com capacidade para produzir até 1.100 toneladas por dia, além de uma usina de concreto instalada no próprio canteiro para reduzir deslocamentos de materiais e aumentar a produtividade.

Entre as estruturas executadas, destaca-se o viaduto localizado no quilômetro 272, com aproximadamente 90 metros de extensão e geometria em curva, construído pelo método de seção tipo “caixão perdido”, considerado de elevada complexidade.

Outro ponto relevante foi a ampliação da ponte sobre o Rio Dourado e a construção de uma nova estrutura paralela.

Segundo a empresa, a obra foi concluída sem registro de acidentes graves de trabalho, seguindo protocolos de segurança adotados pela concessionária Entrevias, integrante do grupo VINCI Highways.

JiveMauá assume controle da Rota Verde Goiás

Outra movimentação relevante ocorreu no segmento de concessões rodoviárias.

A JiveMauá, gestora de investimentos alternativos, passou a deter 80% do capital da concessionária Rota Verde Goiás, após aprovação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

A operação representa a entrada da gestora no controle direto de ativos de infraestrutura rodoviária, após uma estratégia iniciada por meio de operações de crédito estruturado realizadas pelo Fundo IV de Distressed & Special Situations.

Segundo a empresa, o processo envolveu reorganização societária, estruturação financeira, apoio à conclusão dos investimentos previstos no contrato de concessão e viabilização do início da arrecadação de pedágio.

Com a conclusão da operação, a Azevedo & Travassos deixa integralmente a composição societária da concessionária.

A Rota Verde Goiás administra trechos das rodovias BR-060 e BR-452, considerados importantes corredores para o transporte de cargas e o escoamento da produção agroindustrial. O contrato de concessão possui prazo de 30 anos e faturamento anual estimado em aproximadamente R$ 500 milhões.

Segundo Bruno Gomes, sócio e responsável pela área de Distressed & Special Situations da JiveMauá, a operação demonstra a capacidade da gestora de estruturar investimentos complexos em infraestrutura.

Da esquerda para a direita: Bruno Gomes, sócio e head da área de Distressed & Special Situations da JiveMauá; Bernardo Guterres, sócio responsável por crédito estruturado pela área de Distressed & Special Situations; Diego Fonseca, sócio e CFOda JiveMauá

Além da mudança societária, a concessionária recebeu autorização da ANTT para implantar a cobrança eletrônica no modelo free flow, sistema que elimina praças físicas de pedágio e realiza a identificação automática dos veículos por meio de tags eletrônicas ou leitura de placas.

Para a JiveMauá, a nova fase inclui a contratação dos financiamentos necessários para execução do plano de investimentos previsto para os próximos anos, ampliando a capacidade operacional da concessionária em um dos principais corredores logísticos do Centro-Oeste.

Pedágio Digital amplia cobertura nas rodovias paulistas

O avanço do sistema free flow também impulsiona a digitalização dos serviços oferecidos aos usuários das rodovias. Nesse contexto, o Pedágio Digital, plataforma voltada ao pagamento eletrônico por meio da identificação da placa do veículo, anunciou a integração da Concessionária Tamoios à sua operação.

Com a novidade, a plataforma passa a atender concessionárias que representam aproximadamente 95% do mercado de rodovias do Estado de São Paulo, ampliando o alcance da solução para motoristas que utilizam trechos administrados pela Tamoios, Motiva, EcoRodovias e CNL.

Segundo Rodrigo Zambon, CEO do Pedágio Digital, a ampliação acompanha a evolução do modelo de cobrança eletrônica nas rodovias brasileiras. “O avanço do free flow exige soluções que acompanhem essa transformação e coloquem a experiência do motorista no centro. Com a chegada da Tamoios, ampliamos nossa cobertura e fortalecemos o Pedágio Digital como uma plataforma única, prática e segura para consulta e pagamento das tarifas.”

Com a integração, os usuários passam a consultar e quitar passagens realizadas em diferentes concessionárias por meio de um único ambiente, disponível tanto no site quanto no aplicativo da plataforma, sem necessidade de acessar canais distintos para cada rodovia.

O serviço foi desenvolvido principalmente para veículos que não possuem TAG eletrônica, permitindo que os débitos sejam consultados e pagos em até 30 dias após a passagem pelos pórticos de cobrança.

A empresa também reforça que os pagamentos devem ser realizados exclusivamente pelos canais oficiais, destacando que não envia links de cobrança por SMS, WhatsApp ou e-mail, medida voltada à prevenção de fraudes.

A expansão do Pedágio Digital acompanha o crescimento do modelo free flow, que vem sendo adotado gradualmente em diferentes concessões rodoviárias brasileiras.

Adiado o início de operação do free flow no Sistema Anchieta-Imigrantes

Outro avanço na modernização da infraestrutura rodoviária ocorre no Sistema Anchieta-Imigrantes, que vai operar com o sistema free flow – mas, o governo de São Paulo acaba de adiar o início da operação, antes previsto para primeiro de agosto. De acordo com informações do G1, a mudança ocorreu após a fase preparatória de testes operacionais apontar a necessidade de reposicionar um dos pórticos de cobrança da Rodovia dos Imigrantes, no sentido capital. Segundo o governo de São Paulo, as análises identificaram a oportunidade de realocar o equipamento para preservar os deslocamentos locais e ampliar a justiça tarifária. Ainda de acordo com o G1, a Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) e a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) informaram que  o equipamento antes destinado ao km 29 da Rodovia dos Imigrantes, sentido capital, será posicionado no km 38 da via, no mesmo sentido. Os demais pórticos permanecem nos locais já definidos: no km 29 da Imigrantes, sentido litoral, e no km 33 da Via Anchieta.

Homologado pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), o modelo elimina as tradicionais praças de pedágio e utiliza pórticos equipados com sensores e câmeras para identificar automaticamente os veículos ao longo do percurso.

Segundo as informações divulgadas, cerca de 110 mil veículos por dia deverão utilizar o novo sistema de cobrança eletrônica, que foi implementado com base na Lei nº 14.157/2021, criada para regulamentar esse modelo no país.

Antes da entrada em operação, foram realizados testes durante o primeiro semestre de 2026 para validar a precisão dos equipamentos. Nesse período, os pórticos registraram aproximadamente 2,5 milhões de passagens, permitindo aferir o desempenho da tecnologia antes do início da cobrança efetiva.

A expectativa é que o novo modelo contribua para reduzir congestionamentos, eliminar filas nas praças de pedágio e aumentar a fluidez do tráfego em um dos principais corredores rodoviários do Estado de São Paulo.

Outro aspecto destacado é a elevada adesão dos usuários aos sistemas automáticos de pagamento. Atualmente, cerca de 77% dos veículos leves que circulam pelo Sistema Anchieta-Imigrantes já possuem TAG ativa. Entre os veículos comerciais, esse percentual chega a aproximadamente 93%.

Para os motoristas que ainda não utilizam dispositivos eletrônicos, permanece a possibilidade de efetuar o pagamento posteriormente, utilizando plataformas digitais autorizadas, dentro do prazo de até 30 dias após a passagem pelo pórtico.

A tarifa foi unificada em R$ 20,30 tanto para os deslocamentos de subida quanto de descida da serra, substituindo o modelo tradicional de cobrança realizado nas praças físicas.

Daniel Fuchs, da Arqia: “O Free Flow é um exemplo claro de como a conectividade deixou de ser apenas suporte tecnológico para se tornar infraestrutura crítica da mobilidade”

Free Flow nas rodovias brasileiras impulsiona IoT e mobilidade inteligente

O avanço do Free Flow nas rodovias brasileiras representa uma das principais transformações da infraestrutura de transporte do país. Além de eliminar cancelas e reduzir filas nas praças de pedágio, o modelo depende de uma ampla estrutura de Internet das Coisas (IoT), processamento de dados em tempo real e conectividade de alta disponibilidade para garantir a identificação dos veículos, a cobrança automática e a gestão inteligente do tráfego.

A implantação do sistema no Sistema Anchieta-Imigrantes, prevista para agosto, reforça uma tendência que já pode ser observada em outras concessões rodoviárias, como trechos da BR-101 (Rio-Santos), da Rodovia dos Tamoios, da BR-277, no Paraná, e em corredores administrados por concessionárias das regiões Sul e Sudeste.

A expansão do modelo ocorre em um momento de modernização da infraestrutura logística brasileira e complementa o cenário apresentado na primeira parte desta cobertura especial da Logweb, que mostrou como a digitalização das rodovias está acelerando a adoção de soluções conectadas para aumentar a eficiência operacional, reduzir custos e ampliar a segurança no transporte de cargas.

O funcionamento do Free Flow depende de uma arquitetura tecnológica composta por sensores inteligentes, câmeras de alta resolução, sistemas de leitura automática de placas (OCR), antenas de radiofrequência, softwares analíticos e plataformas integradas de pagamento. Todos esses elementos precisam operar de forma sincronizada para identificar veículos em movimento e realizar a cobrança sem necessidade de parada.

Segundo Daniel Fuchs, vice-presidente de Inovação da Arqia, empresa especializada em soluções de conectividade e infraestrutura para IoT, toda essa operação depende de comunicação contínua entre milhares de dispositivos espalhados ao longo das rodovias.

O pedágio sem cancela só existe porque há uma infraestrutura de IoT operando por trás deste sistema. Sensores, câmeras, antenas, sistemas de pagamento e plataformas analíticas precisam trocar informações em tempo real, com baixa latência e alta disponibilidade. Sem conectividade contínua e resiliente, seria impossível garantir precisão na identificação dos veículos, validação financeira e segurança operacional“, afirma.

O executivo explica que diversos processos acontecem simultaneamente quando um veículo atravessa um pórtico de pedágio eletrônico. “Quando um veículo passa por um pórtico Free Flow, diversos processos acontecem ao mesmo tempo. O sistema identifica a placa, valida a tag eletrônica, consulta bases de dados, processa a cobrança e registra a operação em centrais integradas. Tudo isso acontece em poucos segundos. É uma operação extremamente dependente de conectividade máquina a máquina”, destaca.

Além da cobrança automática, a infraestrutura conectada também possibilita o monitoramento permanente das rodovias. Sensores distribuídos ao longo das vias acompanham velocidade média, fluxo de veículos, formação de congestionamentos, incidentes e padrões de mobilidade, fornecendo informações para concessionárias e órgãos responsáveis pela gestão viária.

Na prática, a IoT passa a funcionar como um sistema integrado de monitoramento das estradas, transformando dados capturados em campo em informações capazes de apoiar decisões operacionais em tempo real.

Outro aspecto relevante do modelo é a integração entre concessionárias, instituições financeiras, operadoras de pagamento, sistemas antifraude e bancos de dados veiculares. A comunicação permanente entre essas plataformas garante a validação das transações e a rastreabilidade das operações.

Segundo Fuchs, essa evolução demonstra que a conectividade deixou de exercer apenas uma função de suporte tecnológico.

“O Free Flow é um exemplo claro de como a conectividade deixou de ser apenas suporte tecnológico para se tornar infraestrutura crítica da mobilidade. Hoje, a eficiência operacional das rodovias depende da capacidade de processar dados em tempo real e transformar informação em tomada de decisão automática”, afirma.

Para a logística, o sistema também traz impactos relevantes. A eliminação das paradas obrigatórias em praças de pedágio reduz o tempo de viagem, melhora a fluidez do transporte de cargas, diminui o consumo de combustível e contribui para a redução das emissões de poluentes, especialmente em corredores de grande circulação de caminhões.

Na avaliação do executivo, a tendência é que a expansão do Free Flow acompanhe o desenvolvimento das cidades inteligentes, dos veículos conectados e da digitalização da infraestrutura nacional.

“A tendência é que o modelo se expanda rapidamente nos próximos anos, acompanhando o avanço das cidades inteligentes, dos veículos conectados e novos sistemas de mobilidade digital. Nesse cenário, a IoT deixa de ser apenas uma tecnologia embarcada e passa a ocupar um papel estratégico na infraestrutura nacional de transportes e demais outros setores essenciais da economia”, conclui.

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