Frete rodoviário defasado e reforma tributária pressionam custos do transporte, destaca conferência do SETCESP

A defasagem do frete rodoviário e os impactos da reforma tributária no transporte foram temas centrais da 19ª Conferência de Tarifas – Reforma Tributária e Atualizações do Piso Mínimo de Frete, realizada pelo SETCESP – Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região, em parceria com o IPTC – Instituto Paulista do Transporte de Cargas, em São Paulo, SP. O evento, que aconteceu na última terça-feira, 17 de março, reuniu empresários, executivos e especialistas para discutir os principais desafios do transporte rodoviário de cargas em um cenário marcado pela alta dos custos e incertezas econômicas.

Logo na abertura, o presidente do Conselho Superior e de Administração do SETCESP, Marcelo Rodrigues, destacou a instabilidade do ambiente operacional. “Estamos vivendo um período de instabilidade. O diesel em alta, o aumento do roubo de cargas e as incertezas econômicas tornam o ambiente extremamente desafiador. Qualquer variação de custo pode comprometer toda a margem da operação”, afirmou. Além disso, ele ressaltou que “o momento exige planejamento contínuo, monitoramento de indicadores e revisão permanente de custos e contratos, em um ambiente que demanda maior previsibilidade para a sustentabilidade do setor”.

Na mesma linha, a presidente-executiva do SETCESP, Ana Jarrouge, enfatizou a importância da conferência como ferramenta de apoio à gestão. “Nosso objetivo é traduzir para a realidade das transportadoras os principais temas discutidos no CONET, com dados concretos que apoiem a tomada de decisão. Mais do que debate, trata-se de orientação estratégica para o dia a dia”, afirmou. Segundo ela, a velocidade das mudanças torna o cenário ainda mais desafiador. “O cenário analisado há poucas semanas já foi impactado pelo reajuste do diesel. Além disso, a reforma tributária deixa de ser uma discussão teórica e passa a afetar diretamente as operações dentro das organizações”, completou.

Frete rodoviário defasado e impactos nos custos do transporte

Entre os pontos apresentados, destacou-se a defasagem média do frete rodoviário, estimada em 10,1% abaixo do custo real, conforme dados da NTC&Logística apresentados pelo assessor técnico Lauro Valdívia. “O setor opera com valores inferiores ao custo de referência e, ao considerar a margem de lucro, a defasagem se torna ainda mais significativa, comprometendo a sustentabilidade das empresas”, explicou.

Após um período de relativa estabilidade ao longo de 2025, o cenário mudou nas últimas semanas com a alta do diesel, que já pressiona os índices de inflação do transporte. Nesse sentido, Valdívia destacou que “o momento era favorável para a recuperação de perdas acumuladas, mas a nova escalada das despesas tende a dificultar esse movimento”.

No campo tributário, o assessor jurídico do SETCESP, Adauto Bentivegna Filho, detalhou mudanças relevantes trazidas pela reforma. Segundo ele, os novos tributos — IBS e CBS — passarão a ser destacados no documento fiscal, deixando de ser incorporados ao valor do frete. “O modelo muda completamente. O frete passa a ser um valor, e o tributo outro, explicitado. Isso exige revisão de contratos, sistemas e processos”, afirmou. Além disso, alertou para riscos operacionais: “se o fornecedor não recolher corretamente o imposto, o crédito pode ser perdido. Na prática, o empresário terá de acompanhar de perto a regularidade fiscal de toda a cadeia”.

A reforma tributária no transporte também levanta preocupações sobre fluxo de caixa e formação de preços. Para Marinaldo Reis, diretor da Renascer Express, “haverá impacto direto no caixa, já que, em muitos casos, as empresas poderão faturar um valor, mas receber menos em razão do novo modelo de recolhimento. Sendo assim, o cenário exige revisão imediata da formação de preços”.

Por outro lado, há avaliações de possíveis efeitos positivos. De acordo com Thiago Menegon, diretor da TDB Transporte, a mudança na lógica de tributação pode favorecer determinados mercados. “A mudança da tributação para o destino pode favorecer estados com maior concentração de consumo, como São Paulo, movimento que já leva empresas a reavaliar suas operações logísticas e a trazer atividades de volta para o Estado,” disse.

Entretanto, a falta de previsibilidade regulatória segue como um dos principais entraves. “O maior desafio do empresário hoje é a insegurança. Mudanças de regra em cima da hora dificultam o planejamento e aumentam o risco operacional”, afirmou Raquel Serini, economista do IPTC. Da mesma forma, Gil Menezes, assessora jurídica da NTC&Logística, reforçou a necessidade de preparação. “A reforma exige organização e governança tributária. As empresas precisam revisar contratos, mapear riscos e alinhar processos internos para evitar perdas financeiras durante a transição”, alertou.

Diante desse contexto, o evento reforçou a necessidade de adaptação rápida, uso de dados e revisão contínua das estratégias para enfrentar a pressão de custos e garantir a sustentabilidade do transporte rodoviário de cargas.

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