Operações logísticas críticas exigem tolerância zero a falhas, rastreabilidade total e resposta imediata

Operações logísticas críticas exigem precisão, resposta rápida e alto nível de controle. Nesta matéria exclusiva do Portal Logweb, especialistas destacam que tecnologia, planejamento e preparo humano são essenciais para garantir segurança, previsibilidade e continuidade em ambientes de alta complexidade.

Logística de operações críticas exige tolerância zero a falhas, rastreabilidade total e resposta imediata

Atender operações críticas, como transporte de órgãos e de cargas de grandes dimensões, abastecimento hospitalar, medicamentos de alto valor agregado e grandes eventos internacionais, impõe às empresas de logística um nível de exigência muito superior ao das operações convencionais. Nesses contextos, qualquer atraso, falha operacional ou desvio de condição pode gerar impactos irreversíveis – financeiros, operacionais ou, em casos extremos, humanos.

Segundo Mauricio Motta, presidente da AGV, o principal desafio está em conciliar a previsibilidade com a variabilidade em cadeias altamente sensíveis. “Em setores como o de saúde humana e animal, qualquer desvio de temperatura, atraso de entrega ou erro de separação pode interromper uma cadeia de abastecimento vital.” Ele destaca que operações hospitalares, por exemplo, lidam com entregas fracionadas, prazos curtos e estruturas de recebimento nem sempre padronizadas, o que exige planejamento detalhado, controle total da rastreabilidade e capacidade de resposta imediata.

Mauricio Motta, presidente da AGV
Para Mauricio Motta, presidente da AGV, a automação só gera resultados quando sustentada por uma cultura operacional sólida. “Mesmo em um ambiente cada vez mais automatizado, o fator humano é o elo essencial da operação”

Motta também ressalta que as indústrias farmacêuticas e de bens de consumo de alto giro cobram eficiência absoluta e transparência total sobre a movimentação dos produtos. Tendo em vista que são mercados em que a logística deixou de ser vista como custo e passou a ser um fator de competitividade, o operador precisa acompanhar essa mudança de mentalidade.

Essa complexidade também é ressaltada por Carlos Cesar Meireles Vieira Filho, sócio-diretor da TALENTLOG – Consultoria e Planejamento Empresarial, que classifica essas operações como de “elevada criticidade”. Elas exigem uma logística sofisticada e de alto nível de precisão, confiabilidade, controle e rastreabilidade que superam, em muito, o padrão regular de uma operação logística.

No caso do transplante de órgãos e suprimento de materiais cirúrgico-hospitalares, por se estar tratando de vidas humanas, o cuidado precisa ser ainda maior, lembra Meireles. Alguns pontos são fundamentais: (a) gestão precisa e confiável da janela operacional de entrega, dado que transportes de órgãos, medicamentos e equipamentos médicos exigem cumprimento rigoroso de prazos; (b) margem zero de falhas, quer seja em prazos, como em relação à integridade do produto na entrega; (c) alta confiabilidade na cadeia logística em relação aos processos, sistemas, pessoas, fornecedores, transportadoras, os quais devem estar sincronizados e aptos a oferecer conformidade na entrega; (d) planos de contingência, backups, disponibilidade de sistemas digitais redundantes, como gêmeos digitais (digital twins), gestão de transporte com rotas alternativas e estruturas de emergência; (e) gestão de riscos em tempo real, com o controle de variáveis climáticas, tráfego e segurança viária; (f) monitoramento e rastreabilidade, com sistemas estáveis, redundantes (digital twins) e seguros, tecnologias modernas (IoT, IA, RFID, GPS, TMS, sensores de temperatura e umidade, quando necessários); (g) conectividade e sincronia entre todos os stakeholders do sistema, como indústrias fornecedoras, distribuidores, Operadores Logísticos, transportadoras e autoridades intervenientes e anuentes no processo; (h) rastreabilidade absoluta via centro de controle 24/7, com equipe disponível, especializada e treinada para operação 24hrs, com sistemas redundantes e livres de interrupções de qualquer natureza; e (i) previsão e conformidade regulatória, sanitária e documental junto aos muitos órgãos reguladores, anuentes e intervenientes, como ANVISA, Mapa, ANTT, secretarias estaduais, dentre outros.

“Aprofundei-me mais na logística de transplantes de órgãos e de insumos médico-cirúrgico pela gravidade em relação à questão das vidas que devem ser consideradas, mas devemos destacar a importância da gestão logística em outras operações críticas, como as de F1, de exposições de obras de arte ou de um grande show, dentre outras, pela sua criticidade e por estarem responsáveis por mercadorias de elevadíssimo valor monetário. Quanto custa o descumprimento de prazos ou equipamentos avariados no processo logístico para uma escuderia de F1 no grande prêmio? Mutatis mutandis, muito do que vimos na resposta dos produtos para saúde pode ser aplicado nesses outros setores, como precisão de prazos, confiabilidade e redundância de sistemas, com planos de contingência, backups, disponibilidade de equipe adequada e treinada para cada etapa do processo, monitoramento e rastreabilidade de cada fase operacional, conectividade e sincronia dos muitos stakeholders, previsibilidade e conformidade regulatória dos processos e das equipes engajadas na operação.”

A diretora de operações e segurança do Grupo Protege, Luciana Novaes, aponta que a exigência por resposta imediata é um fator determinante, especialmente em cargas sensíveis. “No transporte de medicamentos oncológicos, qualquer variação de temperatura requer ação corretiva em uma janela muito curta”, afirma. Segundo ela, isso torna indispensáveis investimentos em monitoramento contínuo, sensores inteligentes e telemetria avançada.

Luciana Novaes, diretora de operações e segurança do Grupo Protege
No Grupo Protege, as equipes são treinadas para atuar sob pressão sem comprometer a segurança. “Simulamos cenários reais com equipes externas e de segurança, treinamos motoristas em direção evasiva e defensiva e trabalhamos o tirocínio operacional”, afirma Luciana Novaes, diretora de operações e segurança

Luciana também chama atenção para os desafios de infraestrutura, especialmente em regiões mais complexas do país. “No Norte, onde as condições de infraestrutura são mais adversas, o que sustenta nossa credibilidade é a combinação entre tecnologia, preparo humano e planejamento técnico. Antecipar cenários, adaptar rotas e garantir que cada entrega ocorra com segurança e previsibilidade é parte da rotina”, diz.

Para Marcel Farto, cofundador e diretor comercial da SOLVERSYS, o conceito central dessas operações é a tolerância zero a falhas. “Em contextos como transporte de órgãos, abastecimento hospitalar ou eventos como a Fórmula 1, não há margem para erro. Um atraso pode significar a perda de uma vida ou o comprometimento de um evento multimilionário”, afirma. Ele destaca que isso exige uma precisão de tempo rigorosa, onde a logística não pode apenas ser rápida, mas deve operar em janelas de tempo exatas, coordenando perfeitamente diferentes modais de transporte e equipes.

Além da pressão do tempo, o diretor comercial da SOLVERSYS aponta que essas operações lidam com cargas que exigem condições de manuseio e ambientes estritamente controlados. A manutenção da cadeia de frio para órgãos e medicamentos, o manuseio de equipamentos sensíveis e a garantia da esterilidade hospitalar são cruciais. Paralelamente, o alto valor (financeiro ou humano) dessas cargas exige gerenciamento de risco e segurança extremos, incluindo rastreamento em tempo real e protocolos contra perdas ou danos, ao mesmo tempo em que se navega por complexidades regulatórias e aduaneiras, que podem travar operações se não forem gerenciadas por especialistas.

“Finalmente, a comunicação e a flexibilidade são vitais. O cliente necessita de visibilidade total e proativa da operação, funcionando como uma torre de controle que antecipa problemas. A empresa logística deve ter capacidade de escalabilidade e reação imediata para lidar com demandas voláteis e imprevisíveis, como emergências de saúde pública ou necessidades urgentes de peças em eventos. Essencialmente, essas empresas não vendem apenas transporte, mas, sim, garantia, precisão absoluta e gerenciamento de crises sob extrema pressão”, completa Farto.

O fator tempo também é apontado como o maior desafio por Ricardo Canteras, diretor comercial da Temp Log. “Na logística emergencial, cada minuto conta. Qualquer desvio pode ter consequências graves”, afirma. Para ele, muito mais do que veículos e rotas bem planejadas, essas operações exigem preparo técnico e rastreabilidade total para agir com eficiência sob pressão. “É um trabalho que combina tecnologia e sensibilidade humana. A tecnologia garante acelerar o controle, mas é a experiência e o comprometimento das pessoas que fazem tudo acontecer da forma certa”, diz.

Canteras destaca ainda o papel desafiador da comunicação. Em operações críticas, a informação precisa fluir de maneira transparente e segura entre todos os elos. Isso requer integração de sistemas, padronização de processos e um relacionamento de confiança com clientes e parceiros.

“No fim das contas, o maior desafio é equilibrar velocidade e segurança sem perder a confiabilidade. É isso que diferencia uma entrega que apenas chega daquela que chega do jeito certo, no prazo, na temperatura e com o cuidado que o momento exige”, completa.

Planejamento extremo, engenharia aplicada e preparo humano sustentam a logística de cargas superpesadas e de alto risco

A movimentação de cargas superpesadas ou de alto risco, que não admitem margem de erro, representa um dos maiores desafios da logística moderna. Seja no transporte de equipamentos industriais de centenas de toneladas, cargas perigosas ou operações sensíveis ligadas à saúde e à cadeia fria, o sucesso dessas operações depende de uma preparação rigorosa de equipes, equipamentos e processos — muito antes da carga entrar em movimento.

Para Motta, da AGV, a preparação não é uma etapa isolada, mas parte integrante do próprio processo produtivo. “A capacitação contínua das equipes de operação, transporte e gestão é fundamental, com foco em segurança, qualidade e resposta sob pressão”, afirma. Segundo ele, cargas com peso elevado ou características não homogêneas estão presentes em praticamente todas as cadeias logísticas, inclusive no setor de saúde, exigindo compreensão profunda das particularidades técnicas e operacionais de cada portfólio.

Carlos Cesar Meireles Vieira Filho, sócio-diretor da TALENTLOG
Carlos Cesar Meireles Vieira Filho, sócio-diretor da TALENTLOG, destaca que o uso combinado de smart routing, IoT e IA revolucionou o desempenho das entregas complexas, como transporte hospitalar, de perecíveis, e-commerce de última milha e operações industriais

Essa visão é ampliada por Meireles, da TALENTLOG, que destaca a complexidade da chamada logística de projetos especiais. “Estamos falando de cargas fora do padrão, como turbinas, transformadores, pás eólicas, reatores e também cargas perigosas, químicas, radioativas ou explosivas, que exigem um rigoroso planejamento logístico multidisciplinar, com engenharia específica e aplicada aos processos, dispondo de protocolos rigorosos de segurança”, explica.

De acordo com Meireles, esse tipo de operação começa com estudos de viabilidade técnica, analisando peso, dimensões, centro de gravidade e resistência estrutural da carga e das rotas. Em seguida, são desenvolvidos projetos de engenharia logística com cálculos detalhados de esforço, pontos de ancoragem, raio de curva, inclinação e distribuição de carga nos equipamentos de rodagem, contemplando simulações dimensionais (3D e modelagem digital), que permitem prever comportamento dinâmico durante içamento, transporte e descarga. “A seleção de equipamentos especializados, como veículos e plataformas especializadas; uso de Self Propelled Modular Transporters (carretas e plataformas hidráulicas, modulares, autopropulsionadas com eixos múltiplos e rodas direcionáveis); equipamentos de elevação de alta precisão (guindastes de grande porte, pórticos e equipamentos hidráulicos – strand Jacks, cilindros e macacos); e sistemas de içamento sincronizados individualmente é decisiva para garantir segurança em operações realizadas, na maioria das vezes, em vias públicas”, ressalta. Sem esquecer a conformidade regulatória dos processos e das equipes engajadas na operação, contando com a obtenção de licenças, escoltas, e articulação com as autoridades de trânsito, com concessionárias de energia e telecomunicações.

Para Farto, da SOLVERSYS, a preparação se sustenta em três pilares: engenharia de planejamento, qualificação humana e integridade dos equipamentos. “Tudo começa com um planejamento exaustivo, incluindo planos detalhados de içamento, estudos de rota minuciosos – que inspecionam fisicamente todo o trajeto para verificar a capacidade de pontes, viadutos e a altura de obstáculos – e análises de risco que mapeiam o que pode dar errado”, explica. Simulações digitais e planos de contingência são usados para prever movimentos milimétricos e antecipar falhas.

O fator humano, segundo Farto, é igualmente crítico. “As equipes passam por treinamentos avançados, certificações específicas e briefings rigorosos antes de cada operação, onde cada passo é revisado e a função de cada membro é definida. Em culturas de alta segurança, qualquer profissional tem autoridade e a obrigação de interromper a operação ao menor sinal de risco”, afirma. Já os equipamentos são preparados para serem infalíveis. Eles não são apenas selecionados com enormes fatores de segurança, mas também passam por inspeções, testes e certificações rigorosas antes de cada uso. “Desde os cabos e manilhas, que são descartados ao menor sinal de desgaste, até os guindastes e veículos, tudo é submetido à manutenção preditiva para antecipar falhas. O uso de tecnologia de precisão, como sensores de carga e telemetria em tempo real, garante que a operação ocorra exatamente como planejada. É essa sinfonia de planejamento detalhado, treinamento obsessivo e equipamento robusto que permite a ‘zero margem de erro’”, explica o diretor comercial da SOLVERSYS.

Na Temp Log, a preparação também começa bem antes da coleta. O diretor comercial explica que cada operação é precedida por uma análise de risco detalhada. “Consideramos variáveis como temperatura, rota, trânsito, modais e planos de contingência. Isso evita surpresas durante a entrega”, afirma Canteras. Ele ressalta que as equipes passam por treinamentos constantes, tanto técnicos quanto comportamentais, “porque entendemos que uma operação assertiva depende tanto da habilidade de seguir procedimentos quanto da capacidade de agir com calma e discernimento em situações imprevistas. É o tipo de preparo que cria profissionais que não apenas executam, mas que pensam a operação de maneira sistêmica”.

JG Vantine, CEO da Vantine Logistics Consulting
Para JG Vantine, CEO da Vantine Logistics Consulting, a complexidade se instalou pela falha dos sistemas de compra online que não foram parametrizados para CEP inexistentes, e o maior exemplo no momento é a sua criação em favelas, já iniciada pelo Governo

Um exemplo concreto de logística de alta precisão é citado por JG Vantine, CEO da Vantine Logistics Consulting. Ele relembra o transporte de um mega gerador de 600 toneladas, levado de Guarulhos, São Paulo, até o Porto de Sepetiba, no Rio de Janeiro, pela Rodovia Dutra. “Foi uma operação de altíssima complexidade, envolvendo ocupação de via, veículos especiais, preparo intensivo dos operadores e um planejamento extremamente detalhado”, afirma. Segundo ele, trata-se de um caso emblemático da logística fora do padrão, que não admite erros.

Tecnologia, protocolos rígidos e resposta imediata sustentam a logística da vida

Em operações logísticas que envolvem diretamente a preservação da vida humana, como transplantes de órgãos e o abastecimento hospitalar, a margem para erro é inexistente. Nessas cadeias altamente sensíveis, agilidade e segurança dependem de protocolos rigorosos, tecnologia avançada e integração absoluta entre Operadores Logísticos, instituições de saúde e órgãos reguladores.

Segundo Motta, a AGV “mantém uma cadeia fria certificada pela ANVISA, com monitoramento ativo de temperatura e rastreabilidade completa de ponta a ponta”. Ele ressalta que a logística hospitalar vai além do monitoramento térmico das embalagens. “É fundamental conhecer as especificidades dos produtos, que podem exigir empilhamento específico, embalagens ou revestimentos especiais, de acordo com o transporte e o perfil do destinatário.”

A pronta resposta também é decisiva nesse contexto. Motta explica que hospitais e clínicas nem sempre dispõem de todos os itens em estoque, o que exige faturamentos expressos oriundos dos fabricantes, a partir dos Centros de Distribuição dos Operadores Logísticos que antecipadamente estabelecem os estoques conforme o perfil de consumo de seus clientes. “Este trabalho de geografia, somado à quantidade e disponibilidade, só é possível devido à capacidade de posicionamento e capilaridade dos operadores”, diz. Para ele, a atualização constante da malha de transportes e da localização das filiais faz parte de um processo contínuo de melhoria junto aos clientes. No campo tecnológico, a AGV utiliza sistemas e aplicativos que garantem rastreabilidade total do ciclo do pedido, com todos os registros disponíveis em uma plataforma que pode ser acessada pelo cliente, com retenção de dados de até 10 anos.

De fato, no caso específico dos transplantes de órgãos, a complexidade logística é ainda maior. Meireles da TALENTLOG, destaca que um órgão disponível nem sempre será transplantado no mesmo hospital, cidade ou estado. “O rigor do planejamento e da execução é literalmente vital”, afirma. Segundo ele, essas operações exigem equipes altamente qualificadas, treinadas, autorizadas e aptas a conduzir esta logística, além do uso combinado de ambulâncias, helicópteros e aeronaves, dada a disponibilidade aleatória dos órgãos.

Toda a operação ocorre sob a coordenação do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), vinculado ao Ministério da Saúde. “O SNT é responsável por coordenar, normatizar e monitorar os transplantes no Brasil, garantindo que sejam realizados de forma ética, segura e transparente, em conformidade com os princípios do SUS”, explica Meireles. Ele lembra ainda que a atividade é regulamentada pela Lei nº 9.434/1997, que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento, é o dispositivo legal que regulamenta a atividade e envolve um sistema integrado que inclui centrais nacionais responsáveis por gerenciar, em tempo real, doadores, filas de espera, critérios clínicos, geográficos e a própria logística de transporte.

Para Farto, da SOLVERSYS, a combinação entre protocolos interinstitucionais e tecnologia de ponta é o que garante agilidade e segurança. “No transporte de órgãos, a carga recebe prioridade máxima, com Fast Track em aeroportos e escoltas policiais em trechos críticos”, afirma. Esse processo é acompanhado por centrais de controle 24/7 e sistemas de telemetria que monitoram rotas e estimam o tempo de chegada com precisão.

A manutenção da cadeia de frio é outro ponto central para a segurança dos materiais biológicos e farmacêuticos fotossensíveis. Farto destaca o uso de contêineres ativos, com refrigeração própria e independente da temperatura externa. “Sensores IoT transmitem dados de temperatura em tempo real e disparam alertas automáticos em caso de desvio, permitindo intervenção imediata, além de seguir um estrito protocolo de segurança”, explica.

Marcel Farto, cofundador e diretor comercial da SOLVERSYS
Marcel Farto, cofundador e diretor comercial da SOLVERSYS: : “A logística de última milha descentralizada utiliza mini hubs e pontos de consolidação, e a entrega é frequentemente delegada a agentes comunitários que conhecem profundamente o território”

No abastecimento hospitalar, a segurança é reforçada pela rastreabilidade ponta a ponta de medicamentos de alto valor, o que combate a falsificação e garante a autenticidade. Adota-se um protocolo de tripla conferência no manuseio para minimizar erros humanos e uma integração robusta entre os sistemas logísticos e hospitalares, permitindo um abastecimento Just-in-Time eficiente. Em termos de segurança operacional geral, a telemetria avançada monitora o comportamento do motorista e o Geofencing alerta a central sobre desvios de rota, complementada por comunicação criptografada para proteger a integridade da carga contra riscos externos.

O CEO da Vantine Logistics Consulting resume esse ambiente como um segmento pouco visível, mas altamente estruturado. “Trata-se de uma logística baseada em protocolos rígidos definidos pela ANVISA e em tecnologia da informação que integra hospitais, órgãos médicos e até forças policiais”, afirma. Segundo ele, é um modelo de planejamento de altíssima eficiência, operando permanentemente em condições emergenciais. “É a chamada ‘Logística da Vida’, em que cada segundo é essencial.”

Logística fora do eixo tradicional impulsiona novos modelos para atender regiões de difícil acesso

O avanço do comércio eletrônico, a interiorização do consumo e a necessidade de garantir acesso a bens essenciais têm colocado em evidência um dos maiores desafios da logística contemporânea: atender regiões de difícil acesso, como comunidades urbanas, zonas rurais remotas e áreas classificadas como de risco. Nessas localidades, o modelo logístico tradicional mostra-se insuficiente, exigindo soluções adaptadas à realidade territorial, climática e social de cada região.

Para o presidente da AGV, operar nesses ambientes requer uma ruptura com padrões convencionais. “O modelo de entrega tradicional não é suficiente”, afirma. Segundo ele, a companhia atua em regiões de baixa infraestrutura logística e alta variabilidade geográfica, tanto no Brasil quanto na Colômbia, incluindo áreas periféricas de grandes centros urbanos e trechos isolados do interior. A resposta encontrada foi a adoção de estruturas híbridas, com Cross Docks regionais, roteirização dinâmica e parcerias locais. “Os Cross Docks funcionam como pontos intermediários de consolidação, reduzindo a distância entre o armazém central e o ponto de entrega final”, explica. Hoje, a AGV opera em 12 estados brasileiros e 12 regiões colombianas, combinando presença física e inteligência logística para sustentar entregas consistentes em ambientes imprevisíveis.

A diversidade territorial brasileira amplia ainda mais a complexidade dessas operações, também comenta Meireles da TALENTLOG. Ele lembra que cada entrega é única, mesmo na logística regular. “Condições geográficas, disponibilidade de vias, modais, condições climáticas, volume, morfologia, criticidade da carga e demanda específica de equipamentos de movimentação e transportes exigem análises específicas”, afirma. Segundo ele, o uso de tecnologia georreferenciada tem permitido identificar com maior precisão o locus de entrega, suas restrições geográficas, possibilidades de acessos, zonas de maior risco de alagamento, de obstrução por calado, no caso de acesso hidroviário, de deslizamento de encostas e colapso de pontes, nos casos de transportes terrestres. “Veículos elétricos alimentados por células fotovoltaicas e acessos por drones vêm sendo testados”, diz, ressaltando que as mudanças climáticas tornam o planejamento ainda mais crítico, exigindo sistemas de previsão climática, projeção de rotas acessíveis e rastreamento contínuo das cargas.

No Grupo Protege, essa adaptação logística é parte do cotidiano, especialmente nas operações de transporte de numerário. A diretora de operações e segurança explica que muitas entregas só são viáveis com a combinação de diferentes modais. “Em localidades como Marechal Thaumaturgo, no Acre, combinamos transporte terrestre, aéreo e fluvial para garantir o atendimento”, afirma. Ela destaca que mais de dois mil municípios brasileiros não possuem agência bancária, e que a logística viabiliza o funcionamento das economias locais.

Ricardo Canteras, diretor comercial da Temp Log
No segmento farmacêutico, as exigências ganharam novos contornos com a venda direta a médicos, especialmente na medicina estética. Ricardo Canteras, diretor comercial da Temp Log, explica que, aqui, o fator tempo se tornou determinante

Para reduzir riscos e aumentar a eficiência, o grupo investe em modelos preditivos e inteligência artificial aplicados à roteirização e ao monitoramento em tempo real, além de metodologias como Kanban para controle do fluxo operacional. “Também utilizamos veículos especialmente preparados para suportar as condições mais adversas das rodovias brasileiras”, completa.

A descentralização, a multimodalidade e a colaboração são, também, elementos centrais desse novo desenho logístico. Farto, da SOLVERSYS, afirma que regiões de difícil acesso exigem a substituição dos grandes Centros de Distribuição por estruturas menores e mais próximas do destino final. “A logística de última milha descentralizada utiliza mini hubs e pontos de consolidação, e a entrega é frequentemente delegada a agentes comunitários que conhecem profundamente o território e utilizam veículos adaptados, como motocicletas ou barcos”, explica.

Segundo o diretor comercial da SOLVERSYS, essa logística adaptativa também se manifesta na multimodalidade, combinando o transporte rodoviário com modais fluviais ou pequenos aviões em áreas remotas, e na microlocalização, que emprega veículos leves para navegar por vias de difícil acesso.

Entre as soluções testadas para aumentar a eficiência e a segurança estão geocodificação avançada, análise de dados em tempo real, drones para entregas médicas críticas, sistemas de confirmação digital de entrega para prova de entrega, mesmo em áreas sem internet, e contêineres térmicos inteligentes com IoT. “Estamos caminhando para um modelo de rede distribuída, flexível e colaborativa”, resume Farto.

Canteras, da Temp Log, reforça que o maior desafio não é apenas chegar a essas regiões, mas fazê-lo com previsibilidade e segurança. “É preciso desenhar soluções híbridas, combinando modais e utilizando bases de apoio estratégicas”, afirma. A empresa atua com uma rede de agentes regionais homologados, que garantem capilaridade sem perda de conformidade técnica. O diretor comercial destaca ainda o uso de tecnologias de rastreabilidade off-line, embalagens passivas com autonomia térmica estendida e análises preditivas que cruzam histórico de atrasos, clima e performance de rotas para antecipar riscos.

Para Vantine, o desafio do acesso a áreas de risco e zonas rurais ganhou escala com o crescimento do e-commerce, embora não seja totalmente novo. “Empresas como Avon e Natura já utilizam há muitos anos modelos de entrega individualizada”, afirma. Segundo ele, a complexidade se instalou pela falha dos sistemas de compra online que não foram parametrizados para CEP inexistentes, e o maior exemplo no momento é a sua criação em favelas, já iniciada pelo Governo. “As ferramentas de localização dependem do georreferenciamento baseado nessas informações”, explica. Vantine observa que há iniciativas em desenvolvimento para uso de drones, mas pondera que ainda são soluções incipientes, dependentes de regulamentação e inviáveis para atender volumes massivos de entregas diárias.

E-commerce nas favelas expõe gargalos logísticos e sociais, mas também acelera soluções territoriais

O avanço do comércio eletrônico nas favelas e periferias urbanas brasileiras escancarou um paradoxo: trata-se de um dos mercados mais promissores do país, mas ainda cercado por barreiras estruturais, sociais e tecnológicas que desafiam os modelos logísticos tradicionais. Segundo dados do Data Favela e da Central Única das Favelas (CUF), a renda gerada nesses territórios – o chamado PIB das Favelas – soma cerca de R$ 300 bilhões por ano, superando a economia de 22 estados brasileiros e de países como Uruguai e Peru.

Para Meireles, da TALENTLOG e com 38 anos de atuação em infraestrutura e logística, o tema tornou-se um dos mais relevantes da logística contemporânea no Brasil justamente por combinar “inovação e inclusão social, desafios estruturais e um potencial econômico gigantesco”. Ele destaca que, apesar da rápida expansão do comércio digital, ainda persistem entraves significativos. “Um dos principais ofensores ao sistema de entrega é a infraestrutura urbana precária, especialmente a ausência histórica de endereçamento formal”, afirma.

A definição de CEPs para todas as comunidades, compromisso recentemente assumido pelo governo federal e já materializado com a atribuição de códigos postais a mais de 12 mil favelas urbanas, é apontada como um divisor de águas. Com CEP, ruas e numeração padronizadas, os sistemas de geolocalização ganham precisão, o que é fundamental para a logística. Ainda assim, continua explicando Meireles, ruas estreitas, ladeiras mal pavimentadas e limitações de acesso veicular continuam sendo obstáculos relevantes.

Para contornar essas restrições, soluções como hubs logísticos locais, pontos de coleta comunitários e lockers vêm sendo testadas. “Essas alternativas facilitam a entrega, embora elevem o custo da última milha”, pondera. Outra frente considerada estratégica é a parceria com os próprios moradores. “Credenciar trabalhadores locais, utilizando entregas a pé, de motos ou bicicletas monitoradas, é um caminho viável”, diz.

A questão da segurança também aparece como um dos pontos mais sensíveis. Riscos de roubo, violência contra funcionários das transportadoras e bloqueios de acesso exigem estratégias específicas. “Acordos de convivência pacífica com associações de moradores, definição de rotas menos vulneráveis e que contem com o apoio da comunidade e, em áreas críticas, uso de escoltas, fazem parte das soluções”, observa Meireles.

No campo tecnológico, as dificuldades se ampliam com a conectividade instável ou inexistente em determinados pontos das comunidades. “Nem sempre a internet é de boa qualidade, o que limita o uso de plataformas digitais e o rastreamento em tempo real das transportadoras e dos Operadores Logísticos. Com a Internet inexistente em determinados pontos da comunidade ou a sua instabilidade, além das questões de rastreamento e de endereçamento, há a dificuldade de gestão e controle de pedidos e de pagamento digital (cartões, PIX, etc.). Outra questão é o gap de inclusão digital, pois parte da comunidade ainda não possui smartphones atualizados ou não sabem operá-los.”

Também na avaliação de Farto, da SOLVERSYS, a ausência de endereçamento formal e a irregularidade fundiária seguem como o principal entrave operacional. “Sem endereço confiável, a roteirização automática falha e o entregador passa a depender exclusivamente do conhecimento local, o que gera ineficiência”, explica. Ele acrescenta que a infraestrutura precária e a topografia irregular restringem o uso de veículos maiores e forçam a adoção de modalidades de transporte mais caras e complexas na última milha.

Farto também chama atenção para o impacto social do que define como “exclusão por CEP”. “O estigma e o preconceito limitam o acesso a serviços e corroem a confiança”, afirma. Para ele, de modo a garantir a confiabilidade, é crucial superar a desconfiança em relação à logística externa e investir na integração da mão de obra local. A confiabilidade do e-commerce nesses territórios passa pela descentralização logística, criação de mini-hubs, uso de tecnologias de geocodificação e, sobretudo, pela colaboração com agentes comunitários. “Eles detêm o conhecimento geográfico e social necessário para tornar a operação segura e economicamente inclusiva”, diz Farto.

Por seu lado, o CEO da Vantine Logistics Consulting reforça que as entregas em favelas ou áreas de periferia urbana não são uma novidade na história da logística brasileira. “A Casas Bahia é um exemplo clássico: nunca registrou assaltos em caminhões identificados com sua marca”, lembra. No entanto, segundo ele, o e-commerce caracterizado com fintech introduziu para o último elo do abastecimento (“erroneamente chamado de last mile”) a utilização de entregadores autônomos desconectados do sistema de rastreamento e controle. “O que tem funcionado é a criação de Operadores Logísticos dentro das próprias comunidades, com excelentes resultados em segurança e redução de roubos”, afirma.

Nesse cenário, os Correios vêm ampliando sua atuação como agente executor de políticas públicas voltadas à universalização dos serviços postais. A estatal tem aumentado a oferta de soluções para comunidades periféricas, aldeias indígenas e comunidades quilombolas, com o objetivo de garantir cidadania e pertencimento por meio do acesso logístico.

Para a distribuição domiciliar tradicional, a legislação exige numeração ordenada das residências, caixas receptoras e ruas sinalizadas – responsabilidades dos moradores e da gestão municipal. Onde esses critérios não são atendidos, os Correios adotam a chamada entrega diferenciada de encomendas, prática também utilizada por outras empresas do setor para preservar a segurança de trabalhadores e cargas. Nessas localidades, os moradores são informados no momento da postagem e podem optar pela retirada em unidades indicadas.

Entre as alternativas oferecidas estão o Clique e Retire, os Lockers Correios e o serviço de Caixa Postal, que permitem o recebimento de encomendas sem custo adicional ou com contratação específica, ampliando as possibilidades de acesso ao e-commerce. Além disso, a iniciativa Correios Comunidade levou pontos de coleta diretamente para dentro das favelas. Em abril de 2024, foi inaugurado o primeiro ponto no Complexo da Mangueira, no Rio de Janeiro, fruto de parceria com a prefeitura. Atualmente, já são 22 unidades em funcionamento no país, com previsão de expansão gradual.

Outro marco destacado pela estatal é o programa CEP para Todos, integrado ao Periferia Viva, que reconhece o endereço como instrumento de inclusão social. Com o CEP, moradores passam a ter mais facilidade para acessar programas sociais, serviços de saúde, educação, emprego, sistema bancário e compras on-line, além de maior mobilidade e segurança no uso de serviços urbanos.

A empresa também tem se aproximado do agronegócio para oferecer soluções que conectam os elos da cadeia de produção e a oferta produtos; e, na logística em saúde, tem linha de operações voltadas para o segmento médico, hospitalar e farmacêutico.

Exigência máxima e custo sob controle: como a logística responde aos chamados “clientes difíceis”

Velocidade, previsibilidade, rastreabilidade e cumprimento rigoroso de prazos estão no centro das demandas dos chamados “clientes difíceis” no setor de transporte e logística. Presentes, sobretudo, em segmentos como saúde, bens de consumo, indústria automotiva e transporte de valores, esses embarcadores impõem níveis de serviço elevados e condições operacionais específicas, o que pressiona custos e exige modelos cada vez mais customizados por parte das transportadoras.

Segundo o presidente da AGV, clientes de alta exigência esperam mais do que o simples cumprimento do prazo. “O nível de serviço envolve visibilidade completa da carga em tempo real, relatórios de performance e conformidade regulatória”, afirma. Para conciliar essas exigências com os custos operacionais, a empresa adotou contratos modulares. “Cada cliente paga pela complexidade do serviço que utiliza, o que permite personalizar o nível de SLA sem onerar toda a estrutura”, explica. De acordo com Motta, a eficiência vem da integração tecnologia e planejamento, reduzindo custos operacionais sem comprometer a qualidade da entrega por meio do uso de dados preditivos e automação de processos. “O resultado é um ciclo virtuoso, uma vez que quanto mais eficiente a operação, maior o nível de serviço percebido pelo cliente.”

Para Meireles, da TALENTLOG, o desafio está no trade off permanente entre elevar o nível de serviço e conter custos. “O desejo de melhorar os SLA com o menor impacto possível nos preços é comum ao mercado, mas nem sempre é exequível”, afirma. Ele destaca que, em operações complexas, esse equilíbrio se torna ainda mais difícil. “Dou o exemplo de uma operação de um cliente AAA, que demandava uma operação modelo em um estado distante, com infraestrutura ineficiente, em um município com muitas complexidades, com disponibilidade crítica de energia, rede de Internet instável e imprevisível, escassez de mão de obra, indisponibilidade de galpões adequados à operação e à segurança patrimonial e dificuldade de acesso viário. Aí está a verdadeira capacidade e habilidade de um Operador Logístico atender a todas essas demandas, diante dos muitos ofensores para o êxito da operação. O exercício do trade off passa a ser um fator crítico de sucesso (FCS), contando com a experiência e lições aprendidas pelo Operador Logístico em casos pregressos.”

No Grupo Protege, a abordagem parte de um conceito diferente. “Não vemos clientes como difíceis, mas como clientes com demandas específicas”, afirma Luciana. Segundo ela, cada operação exige soluções fora da prateleira, desenhadas sob medida. “Nossa missão é construir modelos que equilibrem resultado, custo e segurança em um formato ganha-ganha”, diz. Um exemplo citado são as operações de transporte de valores com janelas curtas e horários premium. “Oferecemos alternativas como cofres inteligentes para otimizar rotas e reduzir custos”, explica. Em situações ligadas a fluxo de caixa, a empresa ajusta a modalidade do serviço para garantir maior flexibilidade e previsibilidade.

O diretor comercial da SOLVERSYS define os “clientes difíceis” como aqueles que exigem um nível de serviço muito superior ao padrão e impõem condições operacionais altamente específicas, muitas vezes sem disposição de cobrir integralmente os custos adicionais. Entre as demandas mais recorrentes estão índices de entrega no prazo e na íntegra (OTIF) próximos de 100%, janelas de entrega extremamente rígidas ou prazos Just-in-Time. “Essas exigências forçam desvios de rotas otimizadas e aumentam a complexidade operacional”, afirma. Além disso, demandam serviços de valor agregado, como montagem ou logística reversa complexa, bem como visibilidade total da carga em tempo real e adesão a rigorosos protocolos de gerenciamento de risco.

Para equilibrar custos, a estratégia passa por precificação transparente e eficiência tecnológica. “Cada serviço extra – como tempo de espera ou janelas restritas – é cobrado separadamente, expondo o custo real e justificando o valor do frete”, diz Farto. Paralelamente, investimentos em sistemas avançados de roteirização e telemetria e torres de controle ajudam a reduzir ociosidade da frota, consumo de combustível e riscos de multas.

Por fim, a transportadora busca a consolidação de cargas e o uso de parcerias estratégicas para atender a demandas específicas sem o alto custo de manter uma frota própria subutilizada, transformando a exigência do cliente em um diferencial competitivo de alto valor.

No segmento farmacêutico, as exigências ganharam novos contornos com a venda direta a médicos, especialmente na medicina estética. Canteras, da Temp Log, explica que, aqui, o fator tempo se tornou determinante. “Hoje, indústrias, importadores e laboratórios vendem diretamente para o profissional que já tem pacientes agendados e depende da entrega para não comprometer sua agenda de procedimentos”, afirma. Nesse contexto, a empresa desenvolveu soluções específicas de cadeia fria e last mile farmacêutico. “Criamos uma rede de agentes regionais homologados e atuamos com máxima previsibilidade”, diz. Segundo Canteras, equilibrar custo e performance exige investimento contínuo em tecnologia, treinamento e infraestrutura, apoiado por inteligência de dados para antecipar ocorrências e reduzir retrabalhos.

Para Vantine, o conceito de “cliente difícil” está diretamente ligado ao tipo de operação. “Na indústria automobilística, por exemplo, o sistema Just-in-Time sequenciado impõe compromisso absoluto de horário de entrega”, afirma. Nessas situações, o modelo operacional difere do transporte de longo curso. “Exige veículos adequados e uma planilha de formação de preço focada em eficiência, muitas vezes com soluções como o Milk Run”, aponta Vantine.

Tecnologia como eixo da previsibilidade nas entregas complexas

A adoção de tecnologias como roteirização inteligente, Internet das Coisas (IoT) e Inteligência Artificial (IA) vem alterando de forma significativa a gestão de entregas complexas no setor logístico, especialmente em operações de alta criticidade, como saúde, farmacêutica, transporte de valores, e-commerce e cadeias industriais. As fontes ouvidas apontam ganhos diretos em previsibilidade, rastreabilidade, segurança e eficiência operacional, sustentados por casos concretos de aplicação dessas ferramentas.

Na AGV, o principal impacto está na previsibilidade operacional. Segundo Motta, a empresa opera com um ecossistema de sistemas proprietários integrados – AGV WMS Plus, AGV TMS e AGV Go – conectados a uma torre de controle central. “Recebemos dados de temperatura, localização e status de entrega em tempo real, e a inteligência artificial analisa padrões históricos para prever riscos e indicar desvios antes que se tornem problemas”, afirma. Na prática, explica Motta, a tecnologia permite reprogramar rotas diante de tendências de atraso antes que o impacto chegue ao cliente.

Um caso citado pelo presidente da AGV envolve o projeto desenvolvido para uma grande indústria farmacêutica. “Aplicamos dados preditivos no processo de separação de pedidos e redesenhamos o fluxo operacional, o que resultou em uma redução de 30% no tempo de atravessamento e maior estabilidade no nível de serviço”, relata. Ele destaca ainda que a base de dados construída ao longo dos anos permite antecipar particularidades dos destinatários. “Ausência de docas, escadas, necessidade de ajudante, dificuldade de acesso e tipo de veículo adequado são informações que o TMS considera para customizar cada entrega”, diz.

Meireles, da TALENTLOG, contextualiza o impacto dessas tecnologias em operações de alta complexidade. “O uso combinado de smart routing, IoT e IA revolucionou o desempenho das entregas complexas, como transporte hospitalar, perecíveis, e-commerce de última milha e operações industriais”, afirma. Segundo ele, a roteirização inteligente se baseia em algoritmos avançados, como machine learning, genetic algorithms e big data analytics, capazes de reduzir em até 25% o tempo de entrega e 15% o consumo de combustível. “Esses recursos aumentam a precisão das janelas de entrega e a confiabilidade do indicador OTD”, explica.

Meireles cita exemplos de grandes operações globais. “Uma das maiores empresas de entrega de alimentos utiliza roteirização dinâmica por IA, recalculando trajetos a cada instante em áreas urbanas densas”, afirma. Outro caso envolve um grande e-commerce internacional que utiliza seu sistema de tracking, baseado em learning machine, que combina mapas próprios, previsões de tráfego e IA para definir rotas otimizadas. “Um dos maiores operadores logísticos mundiais usa sensores IoT que monitoram temperatura e impacto em tempo real no transporte farmacêutico e aeroespacial. Outro exemplo é o de um dos maiores armadores de carga conteinerizada do mundo que utiliza o sistema global de IoT para contêineres refrigerados, com dados transmitidos via satélite, que visa reduzir em 30% as perdas de perecíveis”, relata.

No Grupo Protege, a tecnologia é descrita como um pilar estratégico desde 2018. Luciana explica que a empresa centralizou suas operações e adotou roteirização inteligente com apoio de IA. “Essa transformação nos permitiu maximizar a produtividade, garantir o cumprimento rigoroso de SLAs e fortalecer uma cultura orientada a dados”, afirma. Um dos casos concretos envolve um modelo de reengenharia 4.0 que conecta toda a jornada operacional. “Integramos desde a escala de colaboradores e o processo de convocação e saída das bases até o acompanhamento em tempo real via aplicativo, por meio do sistema Follow Me”, explica.

Segundo Luciana, essa integração, somada à atuação de uma torre de controle centralizada, garante visibilidade total aos clientes. “Os resultados incluem redução significativa de horas extras, redistribuição mais eficiente de rotas, inclusive entre bases, e melhor planejamento das tesourarias”, diz, destacando também impactos positivos na qualidade de vida dos colaboradores.

Para Farto, da SOLVERSYS, essas tecnologias permitiram a migração de um modelo reativo para um modelo preditivo e proativo. “Isso é essencial em operações com ‘zero margem de erro’”, afirma. Ele destaca que a roteirização inteligente considera centenas de variáveis além da distância, como janelas rígidas de entrega e restrições de tráfego. “No transporte de medicamentos, essa abordagem reduz atrasos e multas em até 15%”, diz. A tecnologia também é aplicada na coordenação de logística multimodal, definindo pontos ideais de transbordo para veículos menores em áreas urbanas complexas.

No campo da IoT, Farto ressalta o papel central dos sensores na cadeia de frio. “Contêineres para transporte de órgãos e vacinas são equipados com sensores que monitoram temperatura, vibração e localização em tempo real, acionando alertas imediatos caso a faixa segura seja ameaçada”, afirma. Ele cita ainda o uso de sensores no transporte de cargas superpesadas, capazes de medir esforço estrutural e inclinação para evitar danos. Já a IA e o data analytics são utilizados para gerenciamento preditivo. “É possível prever falhas de componentes de caminhões com dias de antecedência e integrar dados de criminalidade à telemetria para alertar sobre riscos de desvios de rota”, explica.

Na Temp Log, a tecnologia também tem sido incorporada de forma prática. Canteras afirma que a empresa implantou recentemente o roteirizador inteligente da Routeasy. “O sistema utiliza inteligência para planejar rotas com base em múltiplos critérios, como distância, tempo de trânsito, prioridade de entrega e janelas de atendimento”, diz. Além disso, a companhia utiliza IA e análise preditiva para cruzar dados de performance de rotas, sazonalidade e condições climáticas. “Isso nos permite antecipar gargalos e sugerir ajustes antes que ocorram falhas”, afirma.

Por sua vez, o CEO da Vantine Logistics Consulting enquadra como entregas complexas aquelas dependentes de hora marcada ou tempo extremamente reduzido, como no e-commerce. “Mesmo com alto investimento em tecnologia, muitas operações ainda não conseguem informar ao consumidor o horário exato da entrega”, afirma. Vantine também menciona a complexidade das cadeias globais de abastecimento, sujeitas a atrasos no transporte marítimo e greves portuárias. “Esses fatores obrigam a manutenção de estoques maiores em cada elo para evitar paradas de produção ou rupturas no varejo”, diz.

Fator humano segue como eixo central nas operações logísticas de alta pressão

Mesmo com o avanço acelerado da automação, da inteligência artificial e dos sistemas de controle em tempo real, o fator humano continua sendo apontado como elemento decisivo nas operações logísticas de alta complexidade. Executivos, consultores e operadores do setor convergem ao afirmar que tecnologia, sem preparo humano e cultura operacional, não garante segurança nem desempenho em cenários de alta pressão.

Na AGV, o entendimento é de que pessoas e tecnologia são indissociáveis. Para Motta, a automação só gera resultados quando sustentada por uma cultura operacional sólida. “Mesmo em um ambiente cada vez mais automatizado, o fator humano é o elo essencial da operação. Tecnologia sem cultura operacional não gera consistência”, afirma. Segundo ele, a empresa investe continuamente em treinamento técnico, formação de lideranças e programas de segurança comportamental.

Os colaboradores são preparados para decisões rápidas e seguras, com base em um modelo de liderança situacional. “Cada profissional sabe exatamente o limite da sua autonomia e quais ações devem ser tomadas em cada tipo de ocorrência”, explica Motta. Esse modelo, aliado à melhoria contínua e à valorização das pessoas, sustenta o alinhamento entre operadores, supervisores e motoristas ao longo de toda a cadeia, do armazém ao cliente final.

O sócio-diretor da TALENTLOG reforça que o fator humano permanece como diferencial competitivo, especialmente em operações complexas, de alto risco ou sob pressão extrema. “O ser humano está no desenvolvimento da tecnologia, na sua alimentação, na sua gestão, no monitoramento e na operação. Por isso, continua sendo o elo crítico da cadeia logística”, afirma. Segundo ele, decisões em tempo real ainda dependem do julgamento humano, sobretudo em situações que exigem empatia, improviso e leitura de contexto, coisas que algoritmos não estão aptos para fazê-lo com a precisão humana.

No Grupo Protege, o fator humano é tratado como tão determinante quanto a tecnologia. Luciana afirma que as equipes são treinadas para atuar sob pressão sem comprometer a segurança. “Simulamos cenários reais com equipes externas e de segurança, treinamos motoristas em direção evasiva e defensiva e trabalhamos o tirocínio operacional”, explica.

Na central de operações, o acompanhamento ocorre em tempo real. “O ‘quinto homem’ monitora as rotas apoiado por telemetria, câmeras analíticas e protocolos claros”, diz Luciana. Segundo ela, a integração entre pessoas, processos e tecnologia é o que sustenta os resultados da operação.

Para Farto, da SOLVERSYS, o fator humano é o elemento mais crítico e imprevisível em operações logísticas de alta complexidade. “Mesmo com tecnologias avançadas, é a execução e a resiliência da equipe que determinam o sucesso da missão”, afirma. Ele destaca que, em cenários de crise, raciocínio rápido, comunicação precisa e aderência rigorosa aos protocolos são essenciais. “Qualquer atalho ou falha pode levar à perda de uma carga vital”, diz.

Segundo o diretor comercial da SOLVERSYS, o treinamento busca transformar ações críticas em respostas automáticas e padronizadas. “Utilizamos simulação e imersão, com treinamento baseado em cenários e até realidade virtual para ensaiar manobras complexas”, explica. Protocolos de comunicação padronizada, checklists inspirados na aviação e a chamada “autoridade de parada” — que permite a qualquer colaborador interromper a operação diante de risco — fazem parte da cultura de segurança.

Também na Temp Log, o fator humano é considerado um ativo estratégico. Canteras afirma que a tecnologia garante controle, mas são as pessoas que asseguram a execução. “É a atitude, a atenção e a tomada de decisão que fazem tudo sair conforme o planejado”, diz. Segundo ele, motoristas, agentes regionais e equipes são treinados para lidar com alta complexidade sem perder o foco em conformidade e empatia.

“O colaborador precisa entender o impacto real de cada entrega”, afirma Canteras. “Quando ele sabe que está transportando um medicamento que pode salvar ou transformar uma vida, o nível de comprometimento muda.” A preparação envolve treinamentos técnicos e comportamentais. “No lado técnico, reforçamos rotinas de checagem, protocolos de contingência, normas e boas práticas. No lado humano, trabalhamos inteligência emocional, gestão do tempo e liderança, porque sabemos que uma decisão tomada com calma e clareza faz toda a diferença no resultado final.”

Vantine também destaca a centralidade do ser humano na logística. “Por mais que ‘pregadores do apocalipse’ falem em sua substituição por robôs e IA, a logística clássica, complexa por natureza, exige a presença humana em praticamente todas as etapas”, afirma. Segundo ele, mesmo com avanços tecnológicos, a operação depende de profissionais treinados para operar equipamentos, dirigir veículos, desenvolver sistemas e garantir que os produtos cheguem da origem ao destino. “No cenário atual, pode ser que algumas poucas operações possam ser substituídas, mas, o fator principal é a utilização de profissionais altamente treinados e comprometidos com a segurança do trabalho e o respeito ao meio ambiente”, conclui.

Logística em áreas de risco exige inteligência, tecnologia e articulação local

As operações de entrega em regiões de risco e com histórico de violência, como a Baixada Fluminense, impõem desafios adicionais à logística e exigem protocolos específicos de segurança. Empresas do setor têm adotado estratégias que combinam planejamento detalhado, uso intensivo de tecnologia, monitoramento em tempo real e parcerias com autoridades e atores locais para mitigar riscos e preservar a integridade das equipes.

Na AGV, a segurança é tratada como prioridade inegociável. “Em regiões com histórico de risco, adotamos planejamento de rota com base em dados públicos de segurança, janelas operacionais ajustadas a horários seguros e comunicação constante com o motorista via torre de controle”, afirma Motta.

A empresa também opera com protocolos de pausa quando um trecho é considerado inseguro em determinado momento. “Há situações em que a entrega é automaticamente reagendada. Trabalhamos com rastreamento ativo, botões de pânico, alertas automáticos e geofencing dinâmico, além de parcerias com forças públicas e órgãos locais”, diz Motta. Segundo ele, nenhuma entrega é mais importante que a segurança de uma equipe. A confiabilidade da operação depende da integridade de quem a executa.

O sócio-diretor da TALENTLOG contextualiza o tema a partir da desigualdade social brasileira. Ele cita dados do IBGE, via resultado da PNAD Contínua, e do World Inequality Lab que mostram que o 1% mais rico da população brasileira concentra cerca de 28% de toda a renda nacional, enquanto metade dos brasileiros (50%) detém apenas 10%. “Estamos falando de um país extremamente desigual, o que impõe desafios hercúleos que temos para atendê-lo, utilizando uma logística inteligente que conheça essa realidade e possa suprir todas as situações e cidadãos brasileiros, onde quer que eles estejam”, afirma.

Para Meireles, a resposta passa por maior sintonia com esses mercados, pois, como vimos, estão em ascensão, e demandarão soluções logísticas que lhes atendam com segurança e regularidade. “As parcerias com a própria comunidade, com associações de moradores, organizações não-governamentais e autoridades locais fazem-se necessárias. O uso de tecnologia apropriada também é uma estratégia eficiente e eficaz”, diz.

No Grupo Protege, as operações em áreas sensíveis são orientadas por inteligência e prevenção. Luciana comenta que a companhia mantém um mapa de calor dinâmico, constantemente atualizado. “Esse mapa orienta o planejamento e o reforço das operações em áreas de risco”, afirma.

A empresa também participa de fóruns de segurança pública e privada e de associações setoriais. “Essa troca fortalece o compartilhamento de informações e boas práticas”, diz Luciana. Em locais críticos, o Grupo Protege adota varreduras preventivas, rotas alternadas e equipes reforçadas. Segundo a diretora de operações e segurança, a parceria público-privada é fundamental, embora ainda exista a necessidade de maior integração e compartilhamento de dados.

Farto, da SOLVERSYS, detalha um conjunto amplo de medidas adotadas em entregas de alto risco. “As transportadoras utilizam análise preditiva de rotas com mapas de calor de criminalidade, evitam trechos e horários críticos e fazem uso obrigatório de múltiplas tecnologias antirroubo, como rastreamento, iscas eletrônicas e bloqueadores remotos, e uso estratégico do conhecimento local”, afirma.

O monitoramento ocorre 24 horas por centrais de gerenciamento de risco, que acionam protocolos de contingência e autoridades em caso de desvios. “Priorizam-se viagens diurnas, uso de comboios em trechos perigosos e manutenção rigorosa da frota para evitar paradas indesejadas”, diz Farto.

Na última milha, especialmente em comunidades, a estratégia é descentralizada. “A carga é transferida para mini-hubs na entrada da área, e a entrega final é realizada por agentes logísticos comunitários, que possuem conhecimento geográfico e social essencial para reduzir riscos e garantir aceitação local”, explica. Esse modelo é complementado por gerenciadoras de risco e pelo diálogo com autoridades e lideranças comunitárias.

Vantine chama atenção para as limitações estruturais da segurança pública no combate ao roubo de cargas. “Apesar das medidas desenvolvidas pelos órgãos de segurança, informações jornalísticas indicam que não há um plano executivo com resultados plenamente eficazes”, afirma. Ele recomenda o acompanhamento dos estudos realizados pela Associação Nacional de Transporte e Logística (NTC&L), desenvolvidos em conjunto com secretarias de segurança pública e outros órgãos ligados ao tema.

Setor logístico busca maturidade para atender clientes de alta exigência com previsibilidade e sustentabilidade

A elevação contínua das exigências por níveis elevados de serviço, precisão e previsibilidade tem pressionado o setor logístico a avançar em diferentes frentes, que vão da integração da cadeia à capacitação de pessoas, passando por tecnologia, sustentabilidade e infraestrutura. Executivos e especialistas do setor apontam que o desafio não está apenas em acelerar operações, mas em torná-las mais coordenadas, responsáveis e consistentes.

Para Motta, da AGV, a principal evolução necessária está na integração ampla da cadeia. “O próximo passo está na integração total dos elos da cadeia, não apenas tecnológica, mas cultural. Enquanto o mercado ainda opera com dados fragmentados e visibilidade parcial, o futuro exige plataformas colaborativas, transparência e padronização de indicadores”, afirma.

Segundo ele, a sustentabilidade operacional também se tornou parte central dessa equação. “É preciso equilibrar crescimento com responsabilidade ambiental e social”, diz Motta. Ele ressalta ainda que manter alta performance não pode significar perder o foco nas pessoas envolvidas na operação. “Acreditamos que a logística do futuro não será apenas mais rápida; será mais inteligente, integrada e consciente.”

Meireles, da TALENTLOG, chama atenção para a necessidade de maior investimento em capacitação técnica e gerencial. Com experiência internacional acumulada ao longo de anos à frente da ABOL – Associação Brasileira de Operadores Logísticos, ele afirma que “as empresas brasileiras ainda investem pouco em educação técnica e corporativa”. Para Meireles, treinamento não deve ser visto como custo. “Em educação não há ponto de saturação. O profissional precisa estar em contínuo aprendizado e entender o ecossistema integrado da empresa e do cliente”, diz.

Ele defende uma formação multidisciplinar do profissional de logística, com visão integrada das áreas operacional, comercial, financeira, tecnológica e de gestão de pessoas, além de atenção permanente a aspectos regulatórios, compliance, gestão de riscos e atualização tecnológica. “Ter políticas de benchmark precisa estar nas prioridades dos gestores”, afirma.

Luciana, do Grupo Protege, aponta que a evolução do setor passa também por infraestrutura, segurança e políticas públicas. “O setor logístico precisa evoluir em infraestrutura, segurança e políticas públicas que garantam rodovias em plena condição de uso, além de investir em alternativas como a malha ferroviária”, afirma.

No âmbito operacional, ela destaca o uso intensivo de dados e tecnologia. “Investimos em inteligência de dados para antecipação de custos, maior otimização e baixa margem de erros. Com IA, monitoramento ativo e métodos ágeis, construímos uma logística mais segura, previsível e sustentável”, diz.

Na visão de Farto, da SOLVERSYS, a evolução necessária se estrutura em três pilares. “O setor precisa aprofundar a inteligência de dados, avançar na descarbonização da frota e do ambiente operacional e fortalecer a colaboração sistêmica”, afirma. Segundo ele, a inteligência de dados deve evoluir para uma lógica preditiva total, integrando variáveis como clima e criminalidade em tempo real e utilizando gêmeos digitais para simular cenários e antecipar falhas.

No campo ambiental, Farto aponta a necessidade de diversificação multimodal, eletrificação da frota urbana, criação de micropontos de distribuição e otimização da logística reversa. “A sustentabilidade passa a ser um fator direto de competitividade”, afirma. Ele também destaca a colaboração entre embarcadores, transportadores e autoridades por meio de plataformas integradas e uso de blockchain para reduzir desperdícios e aumentar a previsibilidade.

O diretor comercial da Temp Log avalia que o setor avançou em tecnologia e profissionalização, mas ainda enfrenta desafios relevantes. “Ainda existe grande fragmentação entre embarcadores, transportadores, Operadores Logísticos e clientes finais, o que gera retrabalho, perda de informação e ineficiência”, afirma. Para ele, o caminho passa por ecossistemas colaborativos, com dados compartilhados em tempo real e processos padronizados.

Canteras também destaca a sustentabilidade como requisito técnico e reputacional. Ele aponta ainda a necessidade de fortalecer a formação e valorização dos profissionais, especialmente em áreas como cadeia fria, controle de qualidade e gestão de risco, além de reduzir a alta rotatividade do setor.´

“Por fim, a evolução depende de uma mudança de mentalidade: entender que logística não é apenas movimentar produtos, mas movimentar confiança. Clientes exigentes não querem apenas preço ou prazo, eles querem garantia de que aquilo que foi prometido será cumprido com segurança, conformidade e responsabilidade ambiental. Em resumo, o setor precisa unir tecnologia, governança e propósito. Só assim será possível entregar alto desempenho de forma sustentável não apenas no sentido ambiental, mas também humana e operacionalmente sustentável.”

Vantine conclui destacando que a logística deve ser entendida como uma ciência em constante evolução. “Ela reúne componentes da engenharia, administração, economia e marketing, e se desenvolve à medida que o mercado impõe exigências cada vez mais complexas”, afirma. Ele ressalta que os elos da cadeia evoluem em velocidades diferentes e alerta para simplificações excessivas. “É um erro balizar a teoria apenas pelo último elo que nasceu com o e-commerce, cujas empresas disputam milimetricamente quem entrega mais rápido, mesmo que o consumidor não necessite, pois não há ‘mágica’ entre alto nível de serviço ao cliente com baixo custo da Logística”, finaliza.

Participantes desta matéria

AGV – Operador Logístico com operações no Brasil e na Colômbia e especialização na gestão da cadeia de suprimentos para os setores de saúde animal, saúde humana e bens de consumo.

Carlos Cesar Meireles Vieira Filho – É mestre em Administração pela UFBA/BA, tem formação em Conselho pela FDC/MG e MBA em Economia e Relações Governamentais pela FGV/SP. Atua há 38 anos em infraestrutura, logística e comércio exterior, com passagem na indústria petroquímica e metalúrgica do cobre, no Governo do Estado da Bahia e em operadores logísticos e portuários. Cofundador e CEO da ABOL – Associação Brasileira de Operadores Logísticos (2012 a 2021), é conselheiro do COMEX da FIEB, conselheiro-tecnico do ILC/Mastermind, conselheiro do Brasil Export, Painel pela Infraestrutura do iBESC e sócio-diretor da TALENTLOG – Consultoria e Planejamento Empresarial Ltda.

Correios – Líderes no segmento logístico e de entrega de encomendas no Brasil e responsáveis pela atividade postal nacional, são uma empresa pública, que tem a missão de promover a integração nacional, contribuindo com o governo no desenvolvimento socioeconômico, conectando pessoas, instituições e negócios.

Grupo Protege – Tem atuação diversificada que engloba logística, processamento e custódia de valores, serviços aeroportuários, segurança patrimonial e eletrônica, além de formação de profissionais e terceirização de mão de obra para as atividades relacionadas à segurança.

JG VantineEngenheiro, professor, consultor e autor de vários livros, com 50 anos de vivência internacional em Logística. Fundador e presidente da Vantine Logistics Consulting, tem histórico comprovado no setor de logística e cadeia de suprimentos. Possui habilidades em negociação, planejamento de negócios, gestão de operações, otimização da cadeia de suprimentos e planejamento de demanda. É considerado um dos pioneiros da logística no Brasil.

SOLVERSYS – Iniciativa liderada por pesquisadores da área de tecnologia com foco em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) com indústrias de transformação nacionais e multinacionais, através do desenvolvimento de um conjunto de soluções de transformação digital para a Indústria 4.0. Hoje lidera o desenvolvimento de softwares sob demanda e é especialista em IA, Data Analytics, Realidade Virtual e Realidade Aumentada, Gameficação e Jogos Sérios.

Temp Log – Oferece soluções logísticas completas, personalizadas e flexíveis de armazenamento, fracionamento e transporte de produtos e equipamentos especiais para saúde. Possui uma rede de agentes regionais homologados pela ANVISA, com acordo de nível de serviço (SLA) e qualidade pautados por sua área de gestão regulatória.

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