Supply Chain não falha por falta de tecnologia. Falha por excesso de decisões malfeitas

Neste artigo, Paulo Roberto Bertaglia, colunista do Portal Logweb, sustenta que os principais problemas do Supply Chain não decorrem da falta de tecnologia, mas da forma como as decisões são tomadas dentro das organizações. O autor argumenta que sistemas avançados apenas ampliam erros quando há incentivos desalinhados, ausência de visão sistêmica e governança decisória frágil. E destaca que maturidade em Supply Chain depende mais de liderança, processos e escolhas conscientes do que da adoção de novas ferramentas tecnológicas.

Seguramente, um tema provocativo, mas, mais do que isso, gostaria de refletir conjuntamente sobre uma realidade que muitas organizações ainda evitam encarar: o Supply Chain não falha por falta de tecnologia, mas por excesso de decisões malfeitas.

Durante a última década, o discurso dominante em Supply Chain foi claro e quase unânime: a solução para os problemas estaria na tecnologia. Mais sistemas, mais integração, mais automação, mais dados, mais inteligência artificial. A promessa era sedutora: previsões mais precisas, estoques mais enxutos, níveis de serviço mais altos e custos mais baixos.

Supply Chain não falha por falta de tecnologia. Falha por excesso de decisões malfeitas

Mas, apesar de investimentos crescentes em ERP, WMS, TMS, APS, torres de controle, analytics e IA, muitas empresas continuam enfrentando os mesmos sintomas crônicos: rupturas frequentes, excesso de estoque convivendo com falta de produto, decisões reativas, conflitos entre áreas e resultados aquém do esperado.

A pergunta que precisa ser feita é direta e desconfortável: se a tecnologia evoluiu tanto, por que o desempenho de muitos Supply Chains permanece instável?

A resposta raramente está na ausência de ferramentas. Ela está no excesso de decisões malfeitas.

A falsa crença de que tecnologia resolve decisões

Tecnologia não decide. Ela calcula, sugere, alerta, simula e acelera. Mas quem decide continuam sendo pessoas. Pessoas inseridas em estruturas organizacionais, pressionadas por metas locais, incentivos desalinhados, agendas conflitantes e culturas que muitas vezes premiam o curto prazo.

Quando decisões ruins são tomadas, a tecnologia não as corrige. Ela as amplifica.

– Um forecast mal construído continua ruim, apenas mais rápido.

– Uma política de estoque equivocada continua equivocada, apenas mais visível.

– Uma priorização errada continua errada, apenas com dashboards mais sofisticados.

Digitalizar uma decisão ruim não a transforma em uma decisão boa. Transforma-a em uma decisão ruim executada com excelência operacional.

Supply Chain é, antes de tudo, um sistema de decisões

Supply Chain não é apenas fluxo de materiais, informação e recursos financeiros. É, sobretudo, um sistema integrado de decisões humanas, distribuídas ao longo da organização:

– o que produzir

– quanto produzir

– quando produzir

– onde estocar

– como servir

– a que custo

– com que nível de risco

Cada uma dessas decisões é tomada em contextos distintos, por áreas diferentes, com objetivos muitas vezes conflitantes.

– Vendas decide olhando para o mercado.

– Operações decide olhando para a capacidade.

– Compras decide olhando para preço e prazo.

– Finanças decide olhando para caixa e margem.

– Logística decide olhando para execução e serviço.

O problema não está em cada decisão isoladamente.
O problema surge quando essas decisões não conversam entre si.

O paradoxo da eficiência local

Um dos maiores inimigos do desempenho sistêmico é a obsessão pela eficiência local. Cada área otimiza seu próprio indicador e, paradoxalmente, o resultado global piora.

– Vendas bate meta e celebra, enquanto o estoque explode.

– Operações reduz custo unitário e perde flexibilidade.

– Compras negocia preço e aumenta lead time.

– Finanças reduz capital de giro e gera ruptura.

– Logística corre para apagar incêndios que não criou.

Todos estão “fazendo bem o seu trabalho”.
Mas o Supply Chain, como sistema, falha.

Isso acontece porque o problema não é técnico. É decisório e estrutural.

Decisões mal feitas raramente parecem decisões ruins no momento

Poucas decisões são tomadas com a intenção de prejudicar o negócio. A maioria parece racional quando analisada isoladamente. O erro está no contexto incompleto.

– Decidir sem visibilidade sistêmica.

– Decidir sem considerar impactos a jusante.

– Decidir com base em incentivos errados.

– Decidir para proteger áreas, não o negócio.

O resultado é um Supply Chain que reage o tempo todo, mas raramente antecipa. Que executa com esforço, mas sem fluidez. Que investe em tecnologia, mas não colhe retorno proporcional.

O custo invisível das más decisões

Decisões malfeitas têm um custo que raramente aparece de forma explícita nos relatórios:

– perda de confiança entre áreas

– desgaste da equipe operacional

– aumento do retrabalho

– decisões emergenciais recorrentes

– erosão de margem

– deterioração do nível de serviço

– fadiga organizacional

Esse custo não aparece em uma única linha do P&L, mas corrói o desempenho ao longo do tempo. E quanto mais tecnologia é adicionada sem revisão decisória, mais esse custo se multiplica.

A ilusão da maturidade digital

Muitas empresas se consideram “maduras digitalmente” porque possuem sistemas integrados, dados disponíveis e automação avançada. Mas maturidade digital sem maturidade decisória é apenas sofisticação operacional.

A pergunta correta não é:
“temos tecnologia suficiente?”

Mas sim:

– quem decide o quê

– com base em quais critérios

– com qual horizonte temporal

– considerando quais trade-offs

Sem respostas claras para essas perguntas, a tecnologia vira maquiagem.

O papel da governança em Supply Chain

Supply Chain de alto desempenho exige governança decisória clara. Isso significa definir, de forma explícita:

– fóruns de decisão

– papéis e responsabilidades

– critérios de priorização

– mecanismos de escalonamento

– cadência de revisão

Processos como S&OP e IBP surgiram exatamente para isso: alinhar decisões, integrar perspectivas e transformar conflitos funcionais em escolhas conscientes. Mas, em muitas empresas, esses processos degeneraram em rituais formais, cheios de dados e vazios de decisão.

Sem governança, o Supply Chain vira um campo de negociações políticas.
Com governança, ele se torna um sistema de escolhas estratégicas

Liderança: o verdadeiro gargalo do Supply Chain

Não existe Supply Chain maduro sem liderança madura.
Liderança que entende que decidir é assumir trade-offs.
Que consenso não é unanimidade.
Que adiar decisões também é uma decisão, quase sempre a pior.

O líder de Supply Chain moderno não é apenas um gestor de processos. É um orquestrador de decisões. Alguém capaz de integrar visões, traduzir dados em escolhas e sustentar decisões difíceis ao longo do tempo.

Onde a liderança hesita, o sistema oscila.
Onde a liderança se omite, o caos se organiza sozinho.

Tecnologia como espelho organizacional

A tecnologia tem um papel fundamental, mas frequentemente mal compreendido. Ela funciona como um espelho: reflete a qualidade das decisões e da cultura organizacional.

Empresas com decisões maduras usam tecnologia para ampliar vantagem competitiva.
Empresas com decisões imaturas usam tecnologia para acelerar erros.

A diferença não está no software.
Está no comportamento.

A sequência correta da transformação

Empresas que conseguem extrair valor real de Supply Chain seguem uma lógica clara, ainda que pouco popular:

1. revisam comportamentos e incentivos

2. redefinem processos decisórios

3. fortalecem governança

4. só então escalam tecnologia

Fazer o inverso é apostar que a tecnologia compensará falhas humanas e organizacionais. Raramente compensa.

Conclusão: o verdadeiro desafio do Supply Chain moderno

O Supply Chain não falha por falta de dados, sistemas ou inteligência artificial. Ele falha quando decisões são tomadas de forma fragmentada, reativa e desconectada do todo.

A grande transformação não começa no software, mas na forma como a empresa decide.

Enquanto as organizações evitarem discutir decisões, preferindo falar apenas de ferramentas, continuarão sofisticando problemas antigos. A verdadeira vantagem competitiva pertence às empresas que entendem que Supply Chain é um sistema vivo, feito de escolhas humanas apoiadas por tecnologia, e não o contrário.

– Implantar sistemas exige investimento e disciplina.

– Redesenhar processos exige método e maturidade.

– Mudar decisões exige liderança. E é isso que transforma.

E é exatamente aí que a maioria ainda falha. Na liderança.

Por hoje é só. Ao infinito e além. Que a força esteja conosco. Estou no Linkedin. Me procure por lá e vamos trocar ideias. É sempre saudável! Você me acha neste link:  https://www.linkedin.com/in/paulobertaglia/ e também na página da empresa Berthas https://www.linkedin.com/company/berthas.com.br e me acompanhe também na Prosa com Bertaglia, o meu canal do Youtube para disseminar o conhecimento, onde pessoas fantásticas comparecem para compartilharem suas experiências e conhecimentos. Faça uma visita: https://youtube.com/@PauloBertaglia

Nos vemos por aí; no mundo virtual e quem sabe no presencial.

Ao infinito e além.

Últimas obras publicadas:

– Logistica e Gerenciamento da Cadeias de abastecimento

– Supply Chain, Logística e Liderança: O futuro é hoje

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Paulo Roberto Bertaglia

Paulo Roberto Bertaglia

Fundador e Diretor Executivo da Berthas, empresa de consultora especializada em supply chain e cofundador da Aveso, organização que atua conectando o ecossistema de startups, investidores e empresas em busca de soluções. Atuou nas empresas: IBM, Unilever, Hewlett-Packard e Oracle. Ao longo da carreira tem se especializado nas áreas de Supply Chain Management, Gestão estratégica de Negócios, Liderança, Vendas e Terceirização de Serviços. Professor de pós-graduação em Logística, Gestão Estratégica de Negócios e Tecnologia da Informação. É Autor de vários livros, entre eles Logística e Gerenciamento da Cadeia de Abastecimento – Editora Saraiva, 4ª edição – 2020. Realiza palestras de temas estratégicos, cadeia de abastecimento e liderança empresarial para empresas e instituições educacionais, além de consultorias e mentorias. É fundador da Prosa com Bertaglia, movimento voluntário para a educação cujo acesso é: https://bit.ly/3VW9Anp

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