Escassez de talentos e o desafio para projetos multimilionários em logística

Por Vanessa Vinhaes*

Quando se fala em logística, é comum imaginar contêineres, pacotes e entregas rápidas. No entanto, no universo da logística de projetos industriais, a realidade é muito mais complexa e imponente: estamos falando da movimentação de transformadores com centenas de toneladas, do embarque de módulos para plataformas de petróleo com pesos superiores a 2.000 toneladas, pás eólicas que atualmente já podem chegar a 130 mts de comprimento e de fretes multimilionários que viabilizam empreendimentos essenciais à infraestrutura nacional.

Trata-se da espinha dorsal de setores estratégicos como mineração, energia renovável, petróleo e gás, infraestrutura, aviação e outros, sendo todos responsáveis por uma parcela significativa do PIB brasileiro. São projetos de capital intensivo (CAPEX) com ciclos definidos e exigências técnicas elevadas, que dependem de uma logística altamente especializada desde a fase de planejamento inicial.

Escassez de talentos e o desafio para projetos multimilionários em logística

 A atuação nesse segmento demanda um tipo de profissional raríssimo: aquele capaz de transformar uma rota sobre o papel em uma operação logística real, navegando por desafios que vão além da gestão de informações, envolvendo variáveis físicas, regulatórias, ambientais, geográficas e até geopolíticas. A movimentação de uma única turbina ou reator, por exemplo, pode depender de autorizações específicas, condições climáticas, negociações com comunidades locais e sinergia entre diferentes modais de transporte.

Nesse cenário, a escassez de talentos se impõe como um dos principais desafios do setor. A logística de projetos industriais ainda carece de uma formação acadêmica estruturada. Não há cursos universitários dedicados a esse segmento específico, e os conhecimentos necessários geralmente são adquiridos ao longo de anos de atuação prática, leitura de normas técnicas e experiência acumulada em campo.

Essa formação artesanal, baseada em vivência e resolução de problemas complexos, dificulta a entrada de novos profissionais. Ao mesmo tempo, o setor enfrenta a missão de atrair uma nova geração para um campo que, apesar de altamente estratégico, é menos conhecido do que outras áreas da logística ou da tecnologia, embora extremamente atrativa e desafiadora, justamente por envolver múltiplos modais e serviços de alto valor agregado. .

Na DHL Global Forwarding, temos assumido esse desafio como prioridade estratégica. Investimos continuamente em iniciativas internas de capacitação e desenvolvimento, com foco em preparar nossos profissionais para os desafios específicos da logística de projetos industriais. Além disso, promovemos a troca de conhecimento entre equipes experientes e novos talentos, incentivando a formação prática e o crescimento técnico dentro da própria operação.

 A consequência da escassez é um gargalo real de mão de obra especializada, com impacto direto na capacidade de entrega dos grandes projetos do país. Afinal, a complexidade dessas operações exige domínio de engenharia de transporte, conhecimento aduaneiro e ambiental, leitura geográfica apurada e, acima de tudo, visão sistêmica e proatividade. Pequenos erros podem gerar prejuízos expressivos, atrasos significativos ou até paradas operacionais que comprometem contratos inteiros.

Por isso, acreditamos que valorizar e desenvolver esses profissionais não é apenas uma vantagem competitiva, mas uma responsabilidade compartilhada por todo o setor. O futuro passa por iniciativas que aproximem a juventude da logística como campo de inovação, impacto econômico e propósito. Afinal, por trás de cada usina ou mina de lítio operacional, há um conjunto complexo de decisões logísticas, que começa muito antes da obra e continua até sua plena operação.

 * Vanessa Vinhaes é Diretora de Projetos Industriais da DHL Global Forwarding

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