Pelo bem da economia, a logística brasileira pode ser pensada com mais carinho

*Por Thomas Gautier

Há quanto tempo o brasileiro não escutava um debate sobre o peso do combustível no custo do transporte de mercadorias? Provavelmente, há um bom tempo. Até fevereiro deste ano, fazia muitos meses que a Petrobras não reajustava o preço do diesel para os distribuidores. A última vez que isso aconteceu havia sido em outubro de 2023. Esse tipo de reajuste tem potencial de impactar o preço de produtos e serviços em diferentes mercados. E, para completar, veio acompanhado de aumento do ICMS. 

Essas altas, naturalmente, acabam repassadas ao consumidor em todo o país, desde os setores de alimentos a aço, minério, construção civil, máquinas e até remédios. No curto prazo, podem contribuir, inclusive, para a piora de indicadores macroeconômicos, como a inflação. No caso das empresas, como reagem? Entre as primeiras ideias que surgem quando os custos sobem está a de cortar equipes e projetos, com objetivo de manter um negócio viável e competitivo. Tais cortes, porém, não são os únicos caminhos possíveis.

Para empresas se manterem no jogo sem a necessidade de interromper iniciativas que muitas vezes vinham dando certo e acelerando o crescimento, uma das alternativas é pensar em como simplificar processos, buscando eficiência operacional. Um ponto em comum em todos os setores da indústria afetados pela alta do diesel é a logística. O modal rodoviário é responsável por transportar mais de 60% das mercadorias no país e, tornando-se cada vez mais eficiente, pode compensar a alta de combustíveis com a redução de outros custos associados ao frete.

No campo da concessão de rodovias para a iniciativa privada, por exemplo, há boas notícias. Anunciados em janeiro, estão previstos 15 leilões em 2025, que devem movimentar R$ 160 bilhões em investimento ao longo dos contratos, e outros 20 leilões em 2026. As concessões costumam dar novo fôlego à conservação e a segurança nas Estradas, o que pode diminuir risco de acidentes, protegendo vidas e evitando prejuízos com a perda de cargas. Isso ajuda, embora seja insuficiente.

As companhias não podem depender apenas dos projetos de terceiros ou do cenário externo para se tornarem mais competitivas e sustentáveis por meio da logística. Pensar a logística com carinho é construir uma logística estratégica de dentro para fora das organizações: das salas onde tomamos as decisões de negócio em direção às Estradas.

Pensar a logística com carinho é usar a experiência brasileira em um país de dimensões continentais para reconhecer as diferentes demandas do setor, dependendo da região onde as cargas trafegam. É entender como as entregas podem se articular etapa a etapa do frete para realizar viagens mais inteligentes, reduzindo a distância que o caminhão percorre e o consumo de combustível, mesmo assim, entregando mais.

Tem a ver com saber mesclar a experiência de décadas dos times em logística com a cultura digital, que tem tornado a operação mais eficiente e segura para as companhias. Processos embalados por insights de dados, maior respeito a prazos, com mais visibilidade sobre as frotas, facilidade de auditoria, informações precisas para mudar a estratégia quando necessário e, especialmente, alcançar a redução de custos.  

Pensar a logística com carinho é entender que, apesar de todas as variáveis capazes de impactar o valor do frete, as empresas podem utilizar estratégias em que elas mesmas conseguem contribuir para manter o custo-frete competitivo e mais acessível. Amadurecer essa visão é entender o papel das companhias para maior bem-estar das pessoas, competitividade do mercado brasileiro e crescimento do país.

**Thomas Gautier tem duas décadas de experiência em grupos internacionais e assumiu como CEO do Freto em 2021. O executivo iniciou sua carreira na França e tornou-se CFO da Repom, no Brasil, em 2013. Em 2017, virou diretor-geral da Repom e, em 2018, passou a ser Head de Logística do Grupo Edenred, quando, em sua gestão, o Freto nasceu.

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